Definitivamente, o Brasil no momento só tem um problema grave na sua política externa: a Venezuela. Por isso é de suma importância a viagem do novo Chanceler Embaixador Ernesto Araújo, um dia depois de tomar posse e encontrar o secretário de Estado dos Estados Unidos, para o encontro do Grupo de Lima, 14 países do continente que procuram uma solução para a situação venezuelana.

A situação venezuelana tem o nome do seu padrinho e sustentáculo cravado em letras douradas: a política externa do governo do PT. Chávez, o presidente que introduziu o bolivarianismo, um socialismo que ele intitulava Socialismo do Século 21, apareceu já no governo Fernando Henrique Cardoso. Enquanto os europeus estranhavam as atitudes do exótico coronel, FHC tolerava e dizia que podia controlar eventuais excessos.

Em 2002, um golpe de Estado praticamente derrubou Chávez e seu socialismo. Mais tarde, sob coordenação do então chanceler brasileiro Celso Amorim, já no governo Lula, e sob os auspícios do Assessor Internacional do presidente, Marco Aurélio Garcia, um grupo de amigos da Venezuela abafou o golpe e manteve Chávez no poder. Sem essa intervenção brasileira, não teríamos nem Chávez, nem Maduro e nem caos e crise humanitária na Venezuela.

Com a bonança dos preços de petróleo, o governo Chávez teve dinheiro para gastar à vontade e atendeu bem todos os interesses. Deu aos militares a área do narcotráfico, bem descrita em todas as séries sobre narcos no Netflix, compras de equipamentos militares do mundo inteiro e mais o controle da base da economia venezuelana: petróleo e sua empresa PDVSA.

Assim, criou-se um modelo político-militar que empurrou o país para a ditadura e o caos social, usando instrumentos aparentes de democracia, como eleições manipuladas e opositores presos, para se manter no poder.

O Brasil, com suas empreiteiras corruptas, aliou-se a esse modelo e deu apoio político à sua expansão, através da Aliança Bolivariana na América Latina. Sobrepôs-se aos Estados Unidos e à Europa leniente e garantiu Chávez e depois Maduro no poder. Assim, a Venezuela hoje deve ao Brasil incobráveis US$ 55 bilhões.

A população brasileira só se deu conta do problema com a chegada de refugiados venezuelanos à Roraima. Mas esde é o menor dos problemas. Pior é a aliança da Venezuela com a Rússia e a China, que confronta diretamente a esfera de influência norte-americana no continente.

E, sem dúvida, a Declaração de Lima, que condena o regime de Maduro e prevê sanções, menciona pela primeira vez com clareza as pretensões venezuelanas sobre o território da Guiana. Nada melhor para um regime podre e falido do que reunir seu povo ao provocar um conflito armado. Maduro e seus militares precisam de algo mais para se manter no poder, e um conflito com a Guiana, rica em recursos naturais, pode oferecer essa oportunidade.

O problema é que isso acontece na nossa fronteira. E o conflito militar não seria um conflito regional, mas, de um lado, Venezuela, China e Rússia, e de outro lado Brasil e Estados Unidos. Uma loucura que está sendo evitada pela diplomacia brasileira, mas que está longe de ser irreal. Uma herança da política externa dos governos petistas das mais malditas.

O autor é ex-presidente do SEBRAE Minas e da FIEMG, vice-presidente do Conselho do Comércio Exterior da FIESP