Como virtualmente todos os estudiosos da política dos Estados Unidos, fui surpreendido pela eleição de Donald Trump em 2016. Não em razão de alguma “torcida” contra o candidato Republicano, mas porque Trump desafiou todas as teorias conhecidas sobre como presidentes são eleitos nos Estados Unidos. Por exemplo, uma maneira conhecida de prever os candidatos mais competitivos nas primárias dos partidos norte-americanos envolvia uma combinação de elementos como número de apoios e caixa de campanha. Trump foi nomeado candidato sem praticamente nenhum apoio dentro do seu próprio partido e com uma campanha desorganizada e mal financiada.

Uma vez selecionado pelo partido, a teoria nos informava que o candidato vencedor seria aquele que conseguisse fazer um apelo mais bem-sucedido ao chamado “eleitor médio”. Trump foi eleito apelando apenas para sua base. Lembro que estava no consulado americano em São Paulo no dia da eleição, e quando o novo presidente foi confirmado disse aos meus colegas: “precisamos voltar a estudar”. Não porque as teorias estivessem necessariamente erradas – elas haviam funcionado muito bem até 2016 – mas porque as mudanças na sociedade e na política norte-americanas foram tão profundas e tão rápidas que não deu tempo de os modelos teóricos acompanharem.

Cumprindo o que disse aos meus colegas naquela madrugada de 2016, iniciei um projeto de pesquisa que me trouxe nesse semestre à Universidade de Georgetown, em Washington, exatamente com o objetivo de compreender, como diz o título do livro publicado pela candidata derrotada Hillary Clinton após as eleições, “what happened”. 

Surpreendido com a vitória de Trump, tornei-me um pouco mais cético quando a ascensão de Bolsonaro foi interpretada por muitos estudiosos como algo passageiro. Como Trump, Bolsonaro não é um fenômeno singular, mas uma consequência de causas mais profundas. Tendo examinado parte da literatura da ciência política sobre tais causas, acredito que posso apontar algumas questões visando auxiliar a compreensão do atual quadro político brasileiro. 

Da mesma forma que nos Estados Unidos, muitas das causas que podem nos ajudar a compreender o apoio a Bolsonaro no Brasil podem ser encontradas na literatura sobre o populismo de direita. Ao contrário da América Latina, na Europa o populismo tem sido historicamente associado à direita e, portanto, autores europeus já produziram uma literatura bastante robusta sobre o tema. Nos Estados Unidos, apenas após a vitória de Trump os pesquisadores voltaram os olhos mais detidamente para esse fenômeno. Seria no mínimo imprudente que no Brasil ignorássemos esses debates.

Em linhas gerais, quatro fatores relacionados à ascensão do moderno populismo de direita podem ser encontrados no Brasil. O primeiro, mais classicamente conhecido, é a crise de representatividade.  Sinais evidentes dessa crise são o aumento dos chamados votos de protesto e a queda nos votos dos principais partidos políticos – ambos elementos que podem ser observados no Brasil. A eleição do ex-palhaço Tiririca como o deputado federal mais votado do país nas eleições de 2010 foi recebido com certa curiosidade em alguns círculos, mas trata-se de um claro indicativo da crise de representatividade vivenciada pelo eleitor brasileiro. 

Por outro lado, nas eleições de 2018, chama a atenção um fenômeno muito similar ao europeu, qual seja, a desidratação dos partidos que predominavam na cena política recente. Certamente, um elemento crucial que explica essa crise é a percepção do eleitor brasileiro de corrupção endêmica na política do país, descortinada pelas investigações da Operação Lava-Jato.

O segundo fator está relacionado à reconfiguração do embate ideológico entre esquerda e direita no contexto da sociedade pós-industrial. Ao contrário da sociedade industrial, grande parte do debate político atual se dá em torno dos chamados valores “pós-materialistas”. Em contraste com os valores materialistas, que enfatizam questões de natureza econômica e manutenção da ordem, valores pós-materialistas estão associados a questões não-econômicas, como expressão individual e a busca por uma sociedade menos hierarquizada. 

Assim, às demandas pós-materialistas da nova esquerda, como a defesa do multiculturalismo, do aborto e do casamento homossexual, por exemplo, observou-se a reação de uma nova direita que enxerga essa agenda pós-materialista como uma ameaça aos valores morais tradicionais e não se vê representada pelos partidos e forças políticas que acabaram por de adaptar à sociedade pós-industrial.

No processo eleitoral brasileiro em 2018, grande parte dos debates se deu em torno de questões não-materialistas, como temas raciais, tratamento de mulheres e de minorias, ao passo que questões de natureza econômica acabaram geralmente relegadas a segundo plano. 
Com efeito, as eleições de 2018 talvez tenham sido as que menos discutiram questões econômicas como, por exemplo, o debate sobre privatizações que costumava ser central em campanhas anteriores no Brasil. Nesse cenário, a assumida ignorância econômica de Bolsonaro não impediu sua ascensão.

Um terceiro fator que não pode ser ignorado e que tem sido incorporado em muitas pesquisas recentes é o papel das redes sociais. Muitos autores apontam as mídias digitais como um fator de enfraquecimento na organização tradicional dos partidos em direção a formas mais flexíveis ou participativas de engajamento político. Além disso, ao facilitar uma forma de comunicação direta com o eleitorado, sem a necessidade do filtro das corporações midiáticas, como as empresas de rádio, TV, jornal e revista, as mídias sociais abrem espaço para atores populistas articularem sua ideologia e difundir suas mensagens mais livremente. 

Finalmente, as mídias sociais permitem que indivíduos que se sentem politicamente isolados, em virtude de possuir ideias consideradas impróprias em uma sociedade liberal, encontrem outros indivíduos que compartilham ideias semelhantes formando uma multidão virtual que tem sido crucial em suprir apoio para políticos e partidos percebidos como fora do establishment. 

Visto que tradicionalmente tempo de TV no horário eleitoral tem sido um fator central na determinação dos candidatos mais competitivos nas campanhas políticas brasileiras, o desempenho de Bolsonaro possivelmente só pode ser explicado pela forte presença online do candidato.

Por fim, um aspecto central para a compreensão do caso brasileiro é a centralidade o debate sobre segurança pública, que em certa medida cumpre a função que o debate sobre imigração tem nos países desenvolvidos. A tendência de explorar politicamente o medo da criminalidade é particularmente forte em lugares que combinam disputa política aberta, desigualdade econômica pronunciada e inabilidade administrativa dos governos. 

Dessa forma, o tema da segurança pública tem a vantagem de apelar para todas as classes sociais e é um meio de angariar apoio popular, abrindo espaço para a articulação na retórica política de um “populismo penal”, normalmente associado à perda de confiança da população no sistema criminal em um contexto de percepção de criminalidade descontrolada. Não é preciso grandes saltos argumentativos para compreender as similaridades com o caso brasileiro. 

O foco obsessivo de grande parte da imprensa em cada frase ofensiva de Bolsonaro em nada ajudou a deter seu crescimento – como aliás, foi o caso de Trump nos Estados Unidos. Aqueles justificadamente preocupados com o atual cenário brasileiro devem fazer um esforço de despersonalização analítica e tentar atuar nas causas apontadas acima. Afinal, Bolsonaro pode perder as eleições. Mas as causas que levaram à sua ascensão não irão desparecer facilmente.

Carlos Gustavo Poggio Teixeira é pesquisador visitante na Universidade de Georgetown, onde realiza pesquisa sobre a ascensão de Donald Trump. É professor dos cursos de graduação em relações internacionais na FAAP e na PUC-SP, do Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais San Tiago Dantas, e coordenador do NEPEU – Núcleo de Estudos sobre a Política Externa dos Estados Unidos.