A recuperação econômica é mesmo gradual e a expectativa de crescimento para este ano começa enfim a recuar. É um choque de realidade. Não teremos a taxa de expansão de 3% ou de 4% que vários bancos ou consultorias estavam projetando. À medida que o tempo passa, essas expectativas vão convergir para uma expansão bem mais modesta, ao redor de 2%.

Para que a economia apresentasse crescimento de 3% este ano, o crescimento a cada trimestre teria que ser pouco acima de 1%, um ritmo anualizado acima de 4%. Já para alcançar 4% neste ano, teríamos que crescer num ritmo anualizado similar ao da China, pouco acima de 6%. A razão de o crescimento ter que ser elevado é porque em 2017 a alta do PIB esteve concentrada no começo do ano, na supersafra agrícola. Assim, a média do PIB trimestral em 2017 foi similar ao PIB do último trimestre do ano, deixando um baixo carrego estatístico para 2018, de apenas 0,3%.

E os dados consolidados do primeiro trimestre mostraram que a recuperação não está em 1% ao trimestre. As estimativas com os dados já observados mostram que a alta deve ser bem menor, pouco abaixo de 0,5%. Assim, já começam as justificativas para quem está revendo as projeções para baixo. Vão desde uma surpresa com eleições presidenciais competitivas, fraqueza no consumo devido à falta de renda, crédito expandindo menos que o esperado apesar da Selic historicamente baixa e até efeito negativo sobre a confiança da atual depreciação do real.

Não teremos o crescimento da economia de 3% ou de 4% que vários bancos ou consultorias estavam projetando. À medida que o tempo passa, essas expectativas vão convergir para uma expansão bem mais modesta, ao redor de 2%

Lembro-me de um economista do mercado financeiro dizendo no final do ano passado que achava que as eleições seriam decididas num segundo turno entre Geraldo Alckmin e Henrique Meirelles e que por isso a economia iria crescer de forma rápida e sustentada desde o início do ano. Mas isso só poderia ocorrer se a eleição fosse restrita à Avenida Brigadeiro Faria Lima, em São Paulo, que concentra boa parte do mercado financeiro. A realidade do Brasil é muito diferente: temos que ter em mente que o eleitor mediano tem renda familiar ao redor de R$ 2 mil.

Com relação ao consumo, de fato não está crescendo tanto. Não somente a renda parou de crescer pela interrupção da queda da inflação, algo que já devia ser esperado, mas também porque os canais de transmissão da política monetária estão entupidos. Apesar da queda do endividamento das famílias, estas estão relutantes em tomar novos financiamentos, pois o custo do crédito segue elevado devido aos altos spreads bancários. Dessa forma, a queda na taxa básica de juros não chega ao tomador final com a potência que poderia chegar. A elevada incerteza do momento atual é uma das justificativas para o spread não ter recuado.

A realidade é dura. O crescimento está vindo, mas segue ocorrendo de forma bastante gradual e levará o PIB deste ano a uma expansão ao redor de 2%. Vale dizer que a projeção da 4E segue em 1,9% desde meados de 2017.