Doutor em Ciência Política pela USP e sócio da Tendências Consultoria

A segunda denúncia contra o presidente Temer não foi uma novidade, embora os incentivos pessoais e institucionais do ex-procurador-geral Rodrigo Janot sugerissem esse desenho. A preservação da sua reputação pessoal, combinada com a necessidade de “proteger” o instrumento da delação premiada, necessitava de um movimento de continuidade na direção do controle no exercício da política. Nossa leitura é que a combinação entre elementos intrínsecos à denúncia e as alterações no contexto político devem resultar na manutenção do mandato Temer até 2018.

O caráter coletivo da peça acusatória aumenta o incentivo para que as demais partes do esquema se mobilizem em defesa do mandato presidencial. Tal cenário evita a repetição do que ocorreu no impeachment da ex-presidente Dilma, marcado pelo seu isolamento no momento do processo. A luta pelo mandato deve ser coletiva, o que facilita a coalizão de veto à denúncia.

A agenda negativa dificulta a construção de uma candidatura única governista. A tendência é de reforço nas tensões entre o governo e os tucanos

Outro elemento favorável à continuidade do governo se refere à agenda econômica. Os dados positivos de crescimento devem esvaziar o apoio entre os agentes econômicos a uma eventual nova transição presidencial. Mais do que isso, a economia também minimiza as chances de mobilizações contrárias à atual administração nas ruas. A popularidade do governo deve permanecer baixa, mas nossa expectativa é de mobilização apenas dos grupos de esquerda, oposição natural ao governo Temer. De todo modo, os congressistas não devem sofrer pressão externa no momento de apreciação da denúncia.

Naturalmente, o novo processo dificulta a construção de apoio à reforma da Previdência. Essa é uma área que, independentemente da nova denúncia, não seria apreciada agora, dado que a Câmara se esforça para aprovar a reforma do sistema eleitoral.

De outra parte, o peso da agenda negativa gera um reforço da necessidade do governo em manter o reformismo em pauta. A recuperação da economia e a defesa das reformas são as bases de legitimação da administração peemedebista. A viabilidade das reformas passa pela necessidade de reforçar a recuperação econômica, desenhando um “fato novo” a ser apresentado como discurso na campanha eleitoral de 2018.

O efeito mais significativo da denúncia, na verdade, aparece na arena eleitoral. A agenda negativa dificulta a construção de uma candidatura única governista para a corrida presidencial. A tendência é de reforço nas tensões entre o governo e os tucanos. O PSDB busca na política um elemento para criar agenda positiva para apresentar ao eleitorado. Os tucanos perderam o debate econômico para o PMDB e buscam criar um distanciamento do governo mal avaliado. O eventual racha governista em 2018 aumenta o risco de volatilidade eleitoral, abrindo espaço para uma campanha mais fragmentada e competitiva.