O ano de 2018 pode se apresentar como um momento único na história dos mercados de capitais no Brasil. Com a meta da taxa Selic a 7% ao ano (ou ainda mais baixa, a depender do Copom), os investidores que miram algum retorno substancial para suas carteiras terão de buscar ativos com maior risco. Duas grandes classes de ativos deverão se beneficiar com maiores volumes de negócios: renda variável (ações, principalmente) e renda fixa privada (debêntures comuns, debêntures incentivadas, notas promissórias e outros papéis). O motivo para isso é bastante natural: a remuneração mais reduzida nos tradicionais títulos públicos federais.

A concentração de investimentos em papéis de baixíssimo risco, como os títulos do Tesouro Nacional, está intimamente ligada à alta taxa de juros praticada no Brasil. Num ambiente como esse, o incentivo para que o poupador comum busque aplicações financeiras mais arriscadas é baixo.

Com o baixo patamar dos juros, as empresas terão uma oportunidade única de buscar empréstimos e financiamentos a custo baixo para os investidores, que poderão procurar instrumentos com retorno superior àqueles do governo federal

Além disso, o chamado efeito crowding out, em que o aumento dos gastos públicos reduz os gastos do setor privado, tem sido bastante evidente – e sua consequência natural é a menor captação de recursos pelas empresas, inclusive no mercado de capitais. Somem-se ainda o conhecimento reduzido sobre produtos de mercado de capitais, a altíssima relevância dos bancos como canais de investimentos e o conservadorismo do público investidor, e começamos a entender o porquê do baixo desenvolvimento do nosso mercado.

Com o baixo patamar de juros, as empresas terão uma oportunidade única de vir ao mercado e buscar empréstimos e financiamentos a custo baixo junto a investidores, que por sua vez poderão investir em instrumentos que ofereçam retornos superiores àqueles do governo federal. Com isso, podemos ver um aumento das novas emissões de ações e títulos nos mercados de capitais.

No médio e longo prazo, três fatores serão importantes para que tal movimento se sustente. Primeiro, e talvez o mais difícil: é necessário que o Brasil apresente estabilidade macroeconômica e uma política fiscal responsável. Segundo, o nível de educação financeira do público investidor deve ser elevado. Terceiro, os reguladores do mercado de capitais (especificamente a CVM) devem ter os poderes adequados para coibir práticas deletérias e assim aumentar o nível de confiança do investidor sobre as ofertas públicas de valores mobiliários.

É claro que o maior risco para a aceleração das atividades nos mercados de capitais no Brasil virá do cenário político-eleitoral, que permanece indefinido e multipolarizado. A oportunidade para os mercados de capitais e para os investidores é boa, mas ela pode ser desperdiçada a depender da atitude da nossa classe política e dos eleitores. Resta trabalharmos para que o melhor aconteça e que possamos sair deste período turbulento da nossa história com ganhos efetivos para a economia, para os investidores e para a população.