Estados Unidos. O pior inimigo da Organização dos Países Produtores de Petróleo (Opep) não são as companhias norte-americanas de extração de xisto. São as coberturas financeiras que as sustentam. 

Os exploradores de petróleo dos EUA que sobreviveram à queda do mercado entre 2014 e 2016 estão rejeitando a queda de 14% nos preços este ano, de um pico de US$ 55,24 para menos de US$ 48 por barril na terça-feira. O preço teria que cair a US$ 30 ou menos para afetar a receita de muitas companhias de perfuração de petróleo que agora trabalham nos campos de xisto dos Estados Unidos, afirma Katherine Richard, CEO da Warwick Energy Investment Group, que tem participações em mais de 5.000 poços de petróleo e gás natural.

Isso se deve ao fato de que muitos produtores já fixaram retornos futuros com contratos que garantem o preço do petróleo durante a maior parte do resto desta década. Isso representa um dilema para os países que aceitaram se unir ao esforço de diminuir a produção, capitaneado pela Opep, com o objetivo de reduzir a oferta para aumentar os preços e aliviar economias nacionais que estão com problemas.

"Temos um novo boom no Texas, apesar do que está acontecendo com os preços ultimamente. O espírito cowboy está de volta. A cobertura está desempenhando um papel importante", disse Michael Webber, vice-diretor do Instituto de Energia da Universidade do Texas.

Os preços do petróleo sofreram outro revés na terça-feira (14) após a Arábia Saudita deixar cair uma bomba sobre a Opep: os sauditas, peso pesado do cartel que conta com 13 nações, elevaram sua produção no mês passado para mais de 10 milhões de barris diário, revertendo aproximadamente um terço dos cortes feitos no mês anterior.

Embora a Arábia Saudita siga honrando seu compromisso inclusive com o aumento, outros membros estão atrasados e essa revelação causou uma sensação de incerteza em relação à capacidade do grupo de realizar os cortes necessários para fortalecer o mercado.

Parceiros duvidosos

Na semana passada, o ministro de Energia da Arábia Saudita, Khalid Al-Falih, alertou durante uma conferência em Houston que o reino saudita não vai arcar indefinidamente com o custo "dos passageiros que viajam de graça", uma referência à Rússia, ao Iraque e aos Emirados Árabes Unidos, que ainda não realizaram os cortes na produção que haviam prometido. Ao mesmo tempo, o multimilionário do xisto e fundador da Continental Resources Inc., Harold Hamm, advertiu que a perfuração desenfreada dos exploradores de xisto pode esmagar os preços e "matar" o mercado de petróleo.

Os preços devem cair ainda mais nos próximos meses, diz Richard, da Warwick. Os exploradores que têm direitos de perfuração nas áreas mais abundantes dos campos mais rentáveis de xisto vão continuar registrando grandes lucros, o que deve levá-los a aumentar ainda mais a produção, enquanto as companhias menores vão cambalear, afirmou.

Preços em queda 

O West Texas Intermediate, valor de referência para o petróleo bruto dos EUA, fechou em US$ 47,72 na terça-feira (14) na Bolsa de Valores de Nova York (Nyme) após cair para US$ 47,09 o barril, o nível mais baixo desde o final de novembro. Os contratos futuros recuaram 9,7% apenas na semana passada.

Cobertura é o instrumento por meio do qual as companhias de petróleo estão protegidas de um possível colapso do mercado. As equipes de gestão de riscos compram e vendem derivados como contratos de opções que estabelecem um preço mínimo e um preço máximo que uma companhia receberá por seu petróleo. Os bancos, por sua vez, cobram uma comissão e podem ter lucros adicionais se o mercado se move em seu favor. Se o preço cair, a companhia petrolífera está protegida.