Em entrevista à AméricaEconomia durante o evento “Emerging Links”, que ocorreu nos dias 5 e 6 de abril em São Paulo e foi o primeiro no Brasil focado nas tecnologias que envolvem o blockchain – conceito que envolve bases de registros e dados compartilhados que têm a função de criar um índice global para as transações em um mercado, como uma espécie de livro-razão público, permitindo maior segurança e agilidade nas transações online – Michael Casey, jornalista por 18 anos no “Wall Street Journal” e agora conselheiro sênior da Iniciativa de Moeda Digital do MIT, destacou as principais mudanças que devem ocorrer na área financeira, sobretudo no modo como os bancos funcionam.

AméricaEconomia – Você acha que o caso do blockchain/bitcoin é parecido com o do modelo de compartilhamento popularizado pelo Napster, que de início parecia uma tecnologia disruptiva, que deveria ser combatida, mas que agora começa a ser adotada por diversas companhias e instituições por ser uma necessidade devido a suas caraterísticas inovadoras?

Michael Casey – A questão central é como vão reagir os grandes bancos, como o JP Morgan, o Citibank e empresas de seguros, que estão trabalhando dentro do sistema para otimizar seus processos, em relação a essas tecnologias. Então eu diria que sim, já existe uma compreensão de que eles não conseguem lutar contra essa tecnologia e que esse modelo lhes dá benefícios. Eu acho que eles sabem, no final do dia, que as inovações vão levar a um modelo peer-to-peer  pleno [que remova qualquer intermediário]. E se nós vemos isso como o futuro do sistema financeiro, então eles [as instituições financeiras] irão administrar esse processo da melhor forma que conseguirem, protelando a implementação total desse modelo para continuar a fazer o que estão fazendo há décadas. Existem, então, muitas mudanças acontecendo, mas ao mesmo tempo existem muitas barreiras para introduzir essa tecnologia em um formato peer-to-peer  pleno.

AE – Porque, basicamente, esse novo modelo deve interferir nos lucros dos bancos na medida em que algumas transações se tornam realmente peer-to-peer.

MC – Vai remover o intermediário, então as taxas que iriam para os bancos acabarão indo para a plataforma que realiza essa transação direta.  

"Nós não sabemos como será o futuro. Precisamos questionar: o que os bancos fazem de bom para a sociedade? Para mim, é a expertise em relação à intermediação de crédito"

AE – Mas algumas pessoas acabam radicalizando e chegando ao ponto de dizer que os bancos vão se tornar obsoletos.

MC – Os bancos terão que mudar. A ideia do que significa um banco vai mudar radicalmente. Eu adoro a ideia de que os bancos saíssem do ramo de pagamentos e se tornassem apenas provedores de crédito. Eu espero que a ideia de que os bancos precisam exer­cer um papel em transações e movimentações de dinheiro entre indivíduos desapareça um dia e que eu e você possamos fazer transações de forma direta.

AE – Mas isso já está acontecendo...

MC – Há muita coisa acontecendo: finanças em modelo peer-to-peer, outros mercados privados, que permitem uma relação mais direta entre os acionistas e as corporações. Acho que os bancos ainda têm um papel. Eles agregam capital e são provedores de crédito. Nós ainda precisamos de empréstimos, uma economia globalizada depende deles. O crédito pode ter diferentes formas e não ser apenas resultado dessa intermediação.

AE – Então o papel do banco ficaria restrito a prover crédito?

MC – Nós não sabemos como será o futuro. Precisamos questionar: o que os bancos fazem de bom para a sociedade? Para mim, é a expertise em relação à intermediação de crédito.

AE – No debate, você disse que países que não são muito desenvolvidos ou não têm um sistema financeiro muito desenvolvido facilitariam a implementação desse tipo de nova tecnologia. Por quê? 

MC – Pode ser mais fácil e trazer mais benefícios. É muito difícil construir sistemas financeiros sofisticados se você não tem instituições em que pode confiar. Se você não tem acesso a um serviço de segurança durante as transações, se você não tem estruturas regulatórias confiáveis, enfim, se você usa o modelo padrão que envolve uma estrutura centralizada, torna-se bem difícil criar um mercado de capitais. Então, a falta de instituições (ou de instituições confiáveis) é o problema e o que o novo sistema diz é: esqueçam essas instituições, tentem criar garantias e melhorias por meio da tecnologia que permitam realizar transações confiáveis. Trata-se de uma forma de resolver vários problemas. Em alguns países que não têm um sistema judiciário eficiente, na hora de fazer uma transação eu posso precisar recorrer à justiça e processar alguém. Então, diante desse sistema pouco confiável, vou acabar não fechando o contrato. não estou dizendo que você não precisa do judiciário, mas se você tem um sistema privado que te dá muito mais segurança em relação à informação que recebe e que tem executabilidade, ou seja, a capacidade de realizar transações, então eu posso não depender mais do judiciário e ter mais confiança em fechar negócios porque já não é tão importante um sistema judiciário eficiente. Esses são os tipos de ideias que devemos explorar. Creio que o mundo desenvolvido estará à frente dessas iniciativas, mas que as melhores oportunidades estão nos mercados emergentes porque eles não têm as instituições necessárias para realizar as transações que ocorrem em países desenvolvidos.

AE – Aqui na América Latina nós temos diversos países que se enquadrariam nessa condição.

MC – Eu conheço bem a América Latina, até porque vivi por seis anos na Argentina, visitei a Bolívia e conheço vários desses problemas. Na Argentina existem problemas fundamentais de confiança em relação à governança do dinheiro. Houve uma grande quebra de confiança entre as pessoas e quem comanda o sistema monetário do país e, por isso, o bitcoin se tornou bastante popular, assim como na Venezuela, porque essas instituições não funcionam nesses locais e acaba se tornando um mecanismo substituto para fazer transações. 

AE – Esses dois países citados são os que mais usam moedas virtuais na América Latina?

MC – Eu não tenho o número exato, mas a Argentina, sem dúvida, em nível per capita,  é um dos países que mais usa bitcoins no mundo inteiro. E na Venezuela aparentemente está se tornando popular. Mas eu acredito que, na Argentina, ironicamente, o bitcoin dá uma oportunidade de desenvolver outras tecnologias relacionadas ao setor porque o país tem uma cultura de startups relativamente bem estabelecida e existem alguns inovadores por lá.
Acho que há uma inter-relação entre bitcoins e inovação na Argentina. Na Venezuela eles têm outros problemas. Essas características podem ser aplicadas ao Brasil. Quando você tem uma crise e uma falta de confiança, você tem a oportunidade de construir algo em cima disso. Então acredito que em toda a América Latina existem grandes oportunidades nesse setor.

AE – Mas no caso do Brasil os escândalos e crises ocorreram mais recentemente, isso não nos coloca em outra posição em relação a países na América Latina que já estão em crise há muito tempo?

MC – Creio que sim, mas eu fiquei bastante surpreso positivamente. Realizamos o Blockchain Challenge e pedimos a startups brasileiras para apresentarem propostas de como usar o blockchain ou criarem um conceito de algo que usaria. Cinco empresas participaram, cada uma de um setor bem diferente das outras, e todas eram realmente interessantes, muito dinâmicas e foi extremamente encorajador. 

AE – Então a crise facilitaria nesse processo?

MC – Sim, crise gera oportunidade. E um dos benefícios fundamentais que essa tecnologia traz é a transparência. Um exemplo seria o caso de despesas do governo, já que agora podemos rastrear pagamentos de qualquer agência federal que você quiser para alguém que irá construir uma ponte e ver para onde foi o dinheiro, como foram feitos os pagamentos, se tudo foi feito de forma correta. Uma transparência que poderia permitir ao Brasil provar a si mesmo que é capaz de sustentar seu crescimento em práticas lícitas.

AE – Não é irônico que a moeda virtual que permitiu o surgimento do Silk Road e outros sites que vendiam materiais ilícitos agora seja vista como uma valiosa forma de garantir transparência?

MC – Ironicamente, a maior preocupação atual com o bitcoin é que ele seria “transparente demais”.