No fim das contas era verdade: a “caixa dos burros”, a televisão aberta, realmente nos deixa burros. E pior ainda: populistas. Mas não há motivos para surpresa: os próprios imperadores romanos já haviam percebido os grandes benefícios políticos que podem proporcionar um reality show ao vivo. A única diferença é que, como não podiam transmitir para milhares de lares da cidade, levavam milhares de pessoas para o palco do show: o Coliseu.

E foi fazendo correlações entre o entretenimento de antigamente e o contemporâneo que Andre Tesei, pesquisador da Universidade Queen Mary de Londres, começou a achar que poderia haver uma conexão direta entre o amor dos populistas modernos conservadores, como Silvio Berlusconi e Donald Trump, pelas redes de TV que tratam as notícias como entretenimento.

Desta forma, ele decidiu analisar o que ocorria na Itália, investigando o impacto político da televisão de entretenimento no país nos últimos 30 anos, após a introdução gradual da Mediaset, a cadeia de televisão comercial de Berlusconi. Para fazer a pesquisa, Tesei comparou os comportamentos eleitorais das pessoas que viviam em regiões onde a Mediaset já estava presente com outras onde ainda não estavam disponíveis.

Para realizar a análise, os pesquisadores usa­ram um software desenvolvido por engenheiros para simular a propagação dos sinais de TV, análises econométricas baseadas em dados eleitorais em nível municipal e dados de pesquisas geo-referenciadas.

"Pessoas expostas à televisão de entretenimento desde que eram crianças são menos sofisticadas do ponto de vista cognitivo e menos comprometidas sócio-politicamente quando se tornam adultos"

Os resultados mostram uma distopia. “Nossas conclusões sugerem que as pessoas expostas à televisão de entretenimento desde que eram crianças são menos sofisticadas do ponto de vista cognitivo e menos comprometidas sócio-politicamente quando se tornam adultos e, por fim, mais vulneráveis à retórica populista de candidatos como Berlusconi”.

Além disso, “os adultos parecem ter sido fisgados pelo conteúdo de entretenimento para serem expostos ao conteúdo de notícias dos mesmos canais”.

Aqueles que foram expostos desde a infância ao entretenimento televisivo tiveram uma pontuação 5% pior na prova cognitiva quando já eram adultos. Também demonstraram um interesse 13% menor em política e 10% menor em participar de atividades envolvendo voluntariado do que quem não teve a mesma exposição.

E os efeitos também podem ser medidos em votos. As pessoas com um menor nível de educação expostas à TV de entretenimento votaram mais no partido Forza Italia (populista) que os que não foram expostos (diferença de três pontos percentuais). Além disso, votaram mais em Berlusconi (diferença de quase oito pontos per­centuais), do que pessoas da mesma idade que foram expostas mais tarde. O efeito é ainda mais forte entre as pessoas que já eram maiores quando foram expostas à TV de entretenimento. Esse grupo votou, em média, dez pontos percentuais a mais no partido Forza Italia que os não expostos de mesma idade.

Para Tesei, “os resultados sugerem que o conteúdo de entretenimento pode influenciar as atitudes políticas, criando um terreno propício para a propagação de mensagens populistas. Trata-se do primeiro estudo importante para investigar o efeito político da exposição entre os eleitores a uma ‘dieta’ de entretenimento”. Para ele, “as conclusões são oportunas tendo em vista o contexto de ajuste dos Estados Unidos à presidência de Donald Trump”.