A América Latina é uma das regiões onde as tecnologias digitais e a internet cresceram de forma mais expressiva nos últimos anos. O número de usuários de internet na região dobrou em pouco mais de uma década (chegando a 54% da população em 2015) e o número de linhas de telefonia móvel chegou a 700 milhões, de acordo com o estudo “A Nova Revolução Digital”, feito pela Comissão Econômica para a América Lati­na e o Caribe (Cepal).

Neste contexto, impulsionado pelo crescimento econômico derivado do boom das matérias-primas, várias empresas da região deram – e estão começando a dar – um passo maior em direção ao cloud computing. “[O cloud computing] é um modelo de prover serviços de informática por meio de uma rede [sobretudo a internet] acessível a partir de qualquer ponto e através de múltiplos dispositivos”, afirma Marcela Cueli, diretora do setor de Marketing de Data Center & Segurança de Produto na América Latina da empresa Level 3.

Geralmente, afirma a executiva, os serviços de cloud computing partem de um catálogo inicial que apresenta as soluções disponíveis, cujo preço varia em função do uso, sendo tudo gerenciado por meio de um portal.

Uma pequena empresa pode usar a mesma ferramenta que uma multinacional com 800 funcionários

O que leva as empresas a adotar esses serviços, em um primeiro momento, é a redução de custos na área da informática. Os benefícios desse serviço, no entanto, vão além disso, pois ele facilita a tomada de decisões, simplifica a aquisição de soluções (leva menos tempo para adquirir um plano na nuvem do que por meio de um servidor tradicional), facilita o acesso a plataformas corporativas, entre outros benefícios.

Outro aspecto interessante do cloud computing, de acordo com Luisa Márquez, gerente-geral da Oracle no Peru, é que uma pequena empresa pode usar os mesmos sistemas que as maiores multinacionais, mas por um preço menor por ser pago de acordo com o uso.

“Hoje em dia a tecnologia deixou de ser um privilégio das grandes empresas e está disponível para todas, não importa se têm um ou 100 mil colaboradores. Uma empresa pequena ou média, por exemplo, pode usar a mesma ferramenta de Human Capital Management (HCM) usada por uma multinacional com 800 funcionários para recrutar profissionais. As tecnologias disruptivas estão disponíveis para qualquer empresa”, diz a executiva da Oracle.

De acordo com Ángel Santiago, diretor sênior do setor de cloud computing e empresas da Microsoft na América Latina, as empresas da região hoje em dia recorrem ao cloud computing porque estão apostando na transformação digital – que foi impulsionada pela demanda por soluções que envolvam pagamentos através de dispositivos digitais, por ferramentas para analisar padrões de comportamento entre os clientes, entre outros fatores.

Demanda aquecida na região

De acordo com os porta-vozes das empresas consultadas, a oferta desse tipo de serviço na América Latina se tornou mais dinâmica de três ou quatro anos para cá. As soluções mais procuradas estão relacionadas à gestão de recursos humanos, processos internos (e operacionais) mais eficientes e melhor relação com os clientes.

“[As empresas] voltadas para o campo de recursos humanos, compras e business intelligence têm muita demanda por softwares”, afirma Michel Steiert, vice-presidente de Analytics & Insight da SAP na América Latina. Na mesma linha, Carlos López, sócio da EY México, acrescenta a esse grupo as soluções para a gestão de documentos, a implementação de help desk e suporte, entre outras.

Steiert também cita a crescente demanda por infraestrutura de nuvem (servidores virtuais, conexões de rede, banda larga, IPs, etc) que ocorre atualmente na região, levando a uma sólida oferta no setor.

Para Marcela Cueli, uma das características do setor de cloud computing latino-americano é que as empresas menores consomem mais softwares, enquanto as empresas médias e grandes demandam mais infraestrutura.

Assim como em outras partes do mundo, os setores de bancos, manufaturas, serviços, telecomunicações e varejo são os que mais demandam serviços na América Latina.

No caso do setor financeiro, Carlos López destaca o interesse das seguradoras pelos serviços na nuvem, uma vez que, por contar com uma menor regulação, o setor tecnológico – em boa parte da América Latina – permite que elas explorem novos modelos de negócio e soluções. López também destaca a forte demanda no setor turístico, já que “requer plataformas de reservas dinâmicas, flexíveis e de custo razoável, o que é suprido pelo modelo de cloud computing”. Os setores extrativistas (mineração, petróleo e gás), por sua vez, procuram serviços relacionados a abastecimento.

Aos clientes do setor privado se somam as entidades governamentais. “Os governos também usam a nuvem para estar perto de seus cidadãos, conhecer as áreas que precisam de melhorias e realizar uma gestão mais eficiente”, afirma Luisa Márquez.

Oferta diversificada

Atualmente, a oferta de serviços de cloud computing na América Latina é liderada por várias companhias de escala global, como IBM, Oracle, SAP, Microsoft, entre outras, o que impede que as empresas da região contratem serviços que essas companhias oferecem em outras regiões do mundo.

Além das empresas de tecnologia e de telecomunicações, também existem consultorias que estão presentes, em nível de assessoria, no ramo do cloud computing. É o caso da EY, que fornece aos clientes uma avaliação do nível de desenvolvimento e as necessidades específicas de suas companhias para que possam se mover para nuvens híbridas confiáveis e adotem o modelo mais adequado para suas necessidades.

A PwC é outra das grandes competidoras do setor. “Nossa empresa busca ajudar os clientes a encontrar uma estratégia, implementar mecanismos de governança para administrar sua nova realidade empresarial na nuvem e fornecer assessoria em relação a qualquer implicação tributária, legal ou contábil. Na América Latina, oferecemos esses serviços há sete anos”, afirma Alexander García, diretor de cibersegurança e privacidade da PwC.

Teto elevado

Embora a nuvem tenha ganhado popularidade entre os clientes latino-americanos, as empresas do setor têm espaço para crescer.

“Os clientes ainda têm dúvidas em relação ao tipo de serviço que podem usar e sobre como podem transformar seus negócios. Mas hoje em dia a demanda na região está muito mais rápida do que há dois anos”, afirma Gonzalo Escajadillo, da IBM.

Para Luisa Márquez, da Oracle, existem alguns fatores fundamentais para o desenvolvimento do setor: a contínua expansão do acesso à internet, uma velocidade melhor de conexão e que as companhias vejam os benefícios reais da tecnologia. “Temos que continuar mostrando os pontos positivos da transformação digital para que, cada vez mais, as empresas se animem a realizar a chamada journey to cloud”, afirma.

Outro desafio para as empresas do setor está na área de cibersegurança. “Hoje em dia, os serviços de cloud computing precisam demonstrar que podem proteger seus clientes e gerar confiança. Se não conseguem se mostrar capazes, mas a concorrência sim, então perdem”, afirma Alexander García, da PwC.

No entanto, apesar do avanço das soluções na nuvem, ainda existem muitas companhias na região – e em outras partes do mundo – que decidem usar servidores e aplicativos localizados fisicamente nas empresas (on premise), aspecto fundamental que as companhias provedoras devem levar em conta.

“A tendência global não é ter empresas 100% cloud ou 100% on premise, mas uma evolução para plataformas híbridas nas quais as empresas continuarão tendo serviços de forma convencional coexistindo com o mundo na nuvem sem que isso signifique disrupção no setor. Nesse contexto, o empresariado deve procurar pro­vedores que possam agregar novas tecnologias”, diz Michel Steiert.