Como cenário, a cidade de Brasília. O ano, 1993. Uma conjunção muito desfavorável de fatores econômicos afligia o Brasil daquela época. Inflação a 40% ao mês, salários arrochados, desemprego recorde. Inspirado no livro “3.000 Dias no Bunker – Um Plano na Cabeça e um País na Mão”, de Guilherme Fiuza, o longa-metragem dirigido por Rodrigo Bittencourt, com roteiro de Mikael de Albuquerque, “Real – O Plano Por Trás da His­tória”, fecha o foco sobre a trajetória e protagonis­mo do economista Gustavo Franco, interpretado por Emílio Orciollo Netto, ao lado de sua equipe no então vigente governo de Itamar Franco. A respeito dos detalhes da produção do filme, a AméricaEconomia conversou com o diretor Rodrigo Bittencourt e abordou fatores cronológicos sobre o Plano Real, seus impactos e efeitos até a contemporaneidade.

AméricaEconomia – Quando e por que você decidiu fazer um filme sobre o Plano Real?

Rodrigo Bittencourt – Fui chamado para dirigir o filme após ser indicado pelo Ivan Teixeira, que soube de mim através do Fabio Burtin, que foi meu fotógrafo em “Totalmente Inocentes”. Ele vai fotografar meu terceiro longa-metragem que rodo agora em julho: “Missão Cupido”. Depois, o Ricardo Rihan me ligou, no mesmo dia, havia lido o roteiro e uma semana depois eu estava no projeto conversando com o Marco Audrá e o Rihan. Eles precisavam de um aval do meu nome na Globo Filmes e novamente Cacá Diegues entra na minha vida, ele ajudou muito no meu primeiro longa e está atualmente na Globo Filmes. Então, quando meu nome bateu lá, ele assinou embaixo junto com Edson Pimentel e Fernando Meirelles. 

AE – Em relação ao trabalho de pesquisa que norteou o filme, o livro de Guilherme Fiuza foi a única fonte?

“Politizar é uma palavra que eu não gosto porque vim da filosofia. O que me interessa é que as pessoas pensem por si mesmas, sem essa bobagem de lados, esquerdos e direitos”

RB – Sou amigo de Guilherme. Acho que ele é um grande escritor e jornalista. Falamos muito sobre o filme, mas não usei o livro para construir o meu recorte dessa história. A não ser por Gustavo Franco ser o protagonista do livro de Guilherme. O meu interesse era criar uma ópera rock, um thriller. Então, aconselhado até pelo pró­prio Guilherme, não quis reler o livro. Pesquisei muito sobre o assunto para ter segurança e investir no meu recorte e estética. Também contei com um roteiro já praticamente encaminhado e escrito pelo Mikael de Albuquerque. O roteiro é sempre uma base importante no processo, mas não é o filme. Um filme é uma junção linda de muitas vertentes artísticas e o diretor deve entender todas, portanto, você precisa estar muito seguro do que vai fazer e propor. E eu estava, porque estudei muito e estudo sempre. 

AE – Cada personagem tem a sua importância no filme, mas Gustavo Franco teve um destaque muito acentuado. Por que ele?

RB – Essa é uma escolha de recorte. Gustavo tem personalidade forte, era jovem na época, o que me favorecia para trabalhar com a estética do rock não só na trilha sonora, mas em tudo que permeia esse filme. Ele é uma personagem rebelde com causa, um sujeito intrigante e interessante, inteligente e corajoso. Esse filme eu fiz para os jovens, queria mostrar a eles uma época em que se construiu uma das maiores ideias do Brasil, o Plano Real.  Por isso também a escolha do Emilio Orciollo Netto, que é um cara com essas qualidades. Não por acaso, nos tornamos muito amigos e nossa parceria nesse filme é visível no que diz respeito à construção desse protagonista. 

AE – Gustavo Franco, figura central da trama, é tratado como o personagem da história responsável pelo sucesso do plano. No caso, o protagonista não seria Fernando Henrique Cardoso, então ministro da Fazenda?

RB – FHC não é economista e o filme não é sobre política e, sim, sobre a ideia genial construída por economistas. Não só Gustavo, ele foi um deles, mas foi escolhido para ser o protagonista do filme por questões dramatúrgicas.

AE – Qual é a proposta essencial do filme, além de mostrar um dos mais importantes momentos históricos do país?

RB – As propostas são muitas e elas estão ali de diversas formas, não estão obviamente montadas. O filme mostra que podemos sim ser um povo positivista, que respeita sua terra e que é capaz de ter ideias geniais como o Plano Real. Ele quer resgatar a esperança brasileira, quer mostrar aos jovens que fomos capazes naquele momento de criar uma ideia tida como referência no mundo todo e que salvou o povo brasileiro da desgraça completa. Com o Plano Real, deixamos de ser vira-latas para ter um pensamento particular brasileiro, fomos dignos, criamos uma moeda forte que revitalizou o povo. Uma moeda forte é algo essencialmente social.

AE – Você acha que o cinema brasileiro peca ao não retratar de forma mais frequente a nossa história?

RB – Acho. Tivemos alguns casos em que se fez cinema assim. O Sergio Rezende é um diretor que se interessa por esses temas, assim como eu. 

AE – Você acredita que trabalhos como este podem ajudar a politizar a população?

RB – Eu acredito que podem fazer pensar. Politizar é uma palavra que eu não gosto porque vim da filosofia. O que me interessa é que as pessoas pensem por si mesmas, sem essa bobagem de lados, esquerdos e direitos. O ser humano tem dois lados. A maioria esmagadora de nós tem duas pernas e dois braços, somos de esquerda e de direita, mas o nosso coração fica no centro. É preciso agir com a inteligência do coração. 

AE – A Lava Jato é uma grande história e o final ainda parece estar longe. Você faria um filme sobre esta operação?

RB – Já está sendo feito. Inclusive uma série está sendo pensada também. O [José] Padilha vai fazer. Espero que ele me chame para dirigir um episódio. O que devo fazer é uma sátira da Lava Jato e já temos distribuidora, estamos escrevendo o roteiro agora pela produtora Escarlate. Tenho um projeto já iniciado que é uma comédia crítica sobre vários momentos do Brasil e está sendo produzida pela Spray Filmes. 

AE – Em uma das cenas iniciais existe uma discussão político-partidária. Hoje vivemos isso de uma forma mais inflamada, mas aparentemente as pessoas estão mais descrentes dos políticos. Como você observa isso?

RB – Não acredito em bandeiras. Tenho amigos dos dois lados dessa moeda enferrujada que é a política no Brasil e percebo que estamos numa lavagem de roupa suja dos dois lados, da esquerda e da direita. O que eu não gosto é dessa agressividade cega. O Brasil está parecendo uma sala ginasial. Pessoas sem o menor preparo falando muita besteira. Eu acredito no equilíbrio, onde se unem forças para o bem do país. E a mim não interessa se são da esquerda ou da direita. Votei no Lula, vim de um bairro super pobre e sei muito bem que ele usou o Plano Real, o tripé econômico, criado no governo Itamar e continuado no FHC, para ajudar o país. E ajudou. Foi um mix de forças ali. O que conto no filme são fatos históricos, mas bato dos dois lados, PSDB e PT. De qualquer modo, se você me perguntar: você é fã do Plano Real? Eu vou te dizer, obviamente sem cegueira, que sim.