Sustentabilidade, uma palavra desgastada e arrisco dizer que pouca gente no nosso Brasil sabe o que é.

Nos tempos de hoje em que imperam a volatilidade, a incerteza, a complexidade e a ambiguidade, talvez as únicas armas para a sobrevivência sejam a sustentabilidade e a inovação. As duas devem andar juntas para se obter, no mínimo, a permanência no mercado.

Examinemos um pouco mais a fundo o significado de sustentabilidade. Entendo que a melhor definição, hoje, de negócio sustentável é aquela que leva em consideração a responsabilidade social e ambiental aliada à responsabilidade econômica. Na grande maioria das vezes, não se atinge a sustentabilidade da noite para o dia, como alguns desejam, mas através de um processo.

"Empresários devem abrir os olhos enquanto ainda há tempo. Toquem os aviões para Brasília em busca de incentivos por implantação de estratégias sustentáveis. Além de obterem um resultado mais perene, não emitirão tanto carbono"

Os tempos do ativismo, que de alguma forma contribuíram pioneiramente para o despertar da sustentabilidade, se foram e hoje mais e mais essa questão está sendo considerada estratégica.

Atualmente, anuncia-se que dentro de cinco anos mais de US$ 5 trilhões investidos na economia fóssil vão migrar para da economia verde. Entretanto, onde estão os projetos sustentáveis para atrair esses investimentos? Quase não existem.

A despeito de qualquer sentimento nacionalista ou mesmo de otimismo disfarçado, o Brasil poderia liderar a captação de investimentos para a nova economia. Basta preparar bem a sua base regulatória e estruturar os seus projetos, levando em consideração os três itens principais: responsabilidade social, ambiental e econômica.

Se desejamos que o país do futuro se torne o país do presente, devemos ter um senso comum para que essas três áreas atuem com racionalidade em conjunto. Hoje, o que temos é o trabalhador que busca cada vez mais os seus direitos, assim como os empresários, que precisam de incentivos. Os ambientalistas ainda acham que são donos de 100% da razão. Claro que existem exceções em todas as categorias, mas são poucas ainda.

Pensemos na agropecuária. Temos, sim, todas as condições para ser a excelência no suprimento de alimento para quem não tem como produzir. Entretanto, não dá para usar a tática do jeitinho.

O Brasil é altamente dependente deste setor, portanto precisamos mais do que levá-lo a sério e, sim, destinar todo nosso foco na busca por excelência. Acredito que a Carne Fraca, apesar dos exageros, ajudou a mostrar um ponto fraco que precisa ser corrigido.

O governo deveria terceirizar a fiscalização ao menos nesse momento. O ministro da Agricultura intitulou a agropecuária brasileira como a mais sustentável na COP 22. Logo em seguida, viu sua bravata cair por terra mostrando a insustentabilidade em seu próprio ministério.

Temos ilhas de excelência neste setor. Agricultores perceberam que de nada adianta a exploração irracional do solo para uma, duas ou três colheitas, se depois sua terra estará exaurida. Pecuaristas que sabem que o caminho da produção de carne sustentável não passa só pela sanidade de seu rebanho, mas pelo aumento da produtividade por hectare, a fim de não precisar desmatar mais áreas.

As recomposições da reserva legal das áreas de proteção permanente se fazem agora premissas legais. Com certeza, em breve as barreiras criadas não serão mais as sanitárias e, mas as ambientais. Para aqueles que seguirem as regras da sustentabilidade, sempre haverá apoio.

A parte dessa classe que ainda tenta resistir, porque não percebeu que o mundo mudou e hoje está requerendo um método de produção diferente, precisa levar o social em consideração, assim como o ambiental e o econômico.

Empresários devem abrir os olhos enquanto ainda há tempo. Toquem os aviões para Brasília em busca de incentivos por implantação de estratégias sustentáveis. Além de obterem um resultado mais perene, não emitirão tanto carbono.

A McKinsey publicou um relatório informando que cada vez mais para entender os riscos e oportunidades de crescimento das empresas, os investidores/financiadores precisam entender a performance delas no que tange à sustentabilidade (responsabilidade social, ambiental e governança). Com isso, conclui-se que o empresário que focar no curto prazo estará fadado a ficar no esquecimento.

Aos ativistas sociais e ambientais, precisamos que todos sentem a mesa com um único objetivo: sustentabilidade.

As ONGs que cuidam exclusivamente do social e do ambiental, e que vivem de doações, precisam se ajustar aos tempos modernos e obter um processo transparente de governança e métricas quantitativas e qualitativas a serem apresentadas aos seus doadores.

Mecanismos para isso estão sendo difundidos como os Development Impact Bonds (DIBs). ONGs como o Instituto Verdescola estão em processo de uma governança transparente e o uso de indicadores para medir seu desempenho e apresentar os resultados bons e ruins para seus mantenedores.

Os ativistas ambientais, sim, tiveram um papel preponderante no passado, entretanto, o momento agora é de se concentrar na busca e implementação das soluções. Um exemplo disso creio ser a parceria do frigorifico Marfrig com o Greenpeace. O Marfrig possui um satélite que monitora as propriedades de seus potenciais fornecedores de bovinos na Amazônia para se certificar de que os bois não estejam vindo de áreas de desmatamento ilegal.

Na área governamental é que estamos engatinhando. Depois do papelão na COP 22 entenderam bem isso e foram obrigados a atuar em conjunto na COP da Biodiversidade em Cancun, onde o Brasil ratificou o compromisso de reflorestar 12 milhões de hectares. Pareceu bastante interessante que a Noruega deseje ajudar os agropecuaristas brasileiros que implantarem as regras da sustentabilidade.

As iniciativas estaduais de ICMS verde já são um bom começo, mas é preciso mais. Penalizar os emissores de carbono é uma premência

Fica aqui o convite a todos: vamos trocar essa capa carcomida, corrupta e atrasada, feita para inglês ver, por um Brasil com uma alma verdadeiramente sustentável? Assim poderemos ser o país do presente.

Jorge Pinheiro Machado - Diretor America Latina – Regions of Climate Actions – R20