Ainda é muito cedo para falar sobre qual será o legado de Donald Trump como presidente dos Estados Unidos.

Primeiro, porque só o distanciamento histórico poderá colocar as decisões da administração em perspectiva, permitindo uma análise balanceada que aponte para continuidades ou rupturas efetivas.

Segundo, porque é preciso ter em conta que nem sempre os discursos que os políticos promovem no calor das emoções acabam sendo condizentes com os atos que praticam ou permitem praticar.

Terceiro, porque ainda não está claro como se articularão importantes forças que influenciam o processo decisório norte-americano, forças estas capazes de contrabalançar excessos isolados que partam de membros do governo. Apesar disso, há sinais que permitem problematizar o tipo de liderança que os Estados Unidos de Trump pretendem exercer no sistema.

Trump venceu as eleições de 2016 com um discurso que vai na contramão do óbvio: não falou apenas em fazer da “América grande de novo”, mas o fez criticando a estrutura em torno da qual os interesses norte-americanos têm sido defendidos mundo afora.

Em campanha, questionou a eficácia da ONU, uma das mais complexas organizações internacionais da atualidade, assim como criticou os termos da OTAN, a mais longeva aliança militar de que se tem notícia.

Depois de eleito, decidiu retirar os Estados Unidos do TPP, um mega acordo que visava aprofundar o livre-comérciona região da Ásia-Pacífico; disse ao Congresso que estaria disposto a ignorar a OMC na formulação de suas políticas, se necessário; além de ter, mais recentemente, anunciado a saída do Acordo de Paris, um arranjo que havia sido negociado na gestão do antecessor para combater o aquecimento global.

Em todos os casos, Trump disse que os Estados Unidos estariam sendo desfavorecidos, na medida em que, segundo ele, arcariam com custos desproporcionais da manutenção destas estruturas quando comparado a outros países.

Provavelmente Trump está certo nisso - de fato, os Estados Unidos são os maiores subsidiários da ordem internacional existente. O que o presidente parece ignorar, no entanto, é que este foi um preço que, há 70 anos, o país escolheu pagar como forma de salvaguardar o controle sobre as “regras do jogo”.

Em outras palavras, a emergência do país como superpotência global veio acompanhada de uma ordem internacional própria, pautada em valores e crenças específicas, de forte viés liberal, sob liderança norte-americana.

Assim, desde então, os Estados Unidos reforçam sua “grande estratégia” de inserção internacional não apenas no acúmulo depoderio isolado, mas pela capacidade de moldar normas e instituições globais.

Na história, mesmo em momentos em que a situação doméstica reforçou a narrativa de declínio dos Estados Unidos, como durante a crise no Vietnã, nos anos 1970, ou no pós-11 de setembro, nos anos 2000, o governo norte-americano não abandonou a preocupação com a manutenção dos valores da ordem internacional erigida décadas antes.

Tanto Nixon quanto Bush filho, por exemplo, tinham claro que uma política de isolamento dos Estados Unidos poderia levar a um vácuo de poder e que isso, por consequência, poderia contribuir para a projeção de novas potências desestabilizadoras.

Por isso mesmo, em vez de rivalizar com o mundo emergente, eles buscaram estabelecer estratégias de cooperação e compartilhamento de responsabilidades. Ao engajar outros países na ordem liberal, acreditavam que estariam promovendo, pela interdependência, a sua dissuasão.

Seguindo a mesma lógica, parece razoável dizer que Trump pode minar as bases da liderança internacional de seu país caso opte por um progressivo afastamento dos EUA em relação a parceiros tradicionais e um esvaziamento da narrativa sustentada pelas instituições existentes. Poderia obter ganhos táticos renegociando os termos de acordos e tratados que julga injustos, mas lograria perdas estratégicas de longo prazo, com a possibilidade, inclusive, de expansão do poder chinês ou mesmo europeu.

Assim, a manutenção da hegemonia diante da multipolaridade poderia tornar-se cada vez mais difícil. O futuro nos reservará as respostas que hoje são incertas. De todo modo, a pergunta central já está posta: quão revolucionário será Trump?

Fernanda Magnotta é mestre em Relações Internacionais pela San Tiago Dantas (Unesp/Unicamp/PUC-SP), pós-graduada em Globalização e Cultura (FESP) e graduada em Relações Internacionais (FAAP). Atualmente é coordenadora do Curso de Relações Internacionais da FAAP.