O Brasil está alinhado com as principais tendências mundiais e à frente de outras economias emergentes, como Índia e México, quando se trata de operações digitais, ou seja, sem as tradicionais cédulas de dinheiro. O consumidor brasileiro, principalmente das grandes cidades, já está acostumado a fazer compras com cartão de crédito, que incluem desde uma revista em uma banca até produtos mais valorizados. Só para se ter uma ideia, 90% dos consumidores brasileiros estão dispostos a considerar novas tecnologias de pagamento como biometria, aplicativos ou pagamentos sem contato (contactless payments), segundo levantamento feito pela Braun Research que entrevistou mil consumidores com mais de 18 anos de países das Américas, entre eles o Brasil, em julho de 2016.

Na Índia, por exemplo, a digitalização do dinheiro é um processo novo. Para incentivar o uso do cartão, em novembro do ano passado, o governo indiano anunciou o fim das cédulas de alto valor, o que pode ser considerando um dos maiores experimentos sociais já feitos no país. Até aquele momento, 95% de todas as transações na Índia eram feitas com dinheiro, tornando o país uma das sociedades que mais utilizava cédulas no mundo.

Quando o primeiro-ministro indiano, Narenda Modi, anunciou que estava dando fim a 86% das notas de dinheiro, praticamente, da noite para o dia, muitas pessoas reagiram com raiva, medo e até pânico. Porém, assim que a poeira começou a baixar, alguns cidadãos começaram, aos poucos, a apoiarem a atitude dele por entenderem os benefícios que a digitalização e modernização da economia indiana traria a longo prazo. Um exemplo de como os brasileiros estão à frente de outras economias emergentes é que, se esta ação fosse adotada pelo governo brasileiro, seria mais bem aceita em nossa sociedade, pois os meios de pagamento eletrônicos já são bem dinfundidos no país.

"Só para se ter uma ideia, 90% dos consumidores brasileiros estão dispostos a considerar novas tecnologias de pagamento como biometria, aplicativos ou pagamentos sem contato (contactless payments)"

Apenas alguns meses após o choque inicial, cada setor econômico da Índia passou a se beneficiar da modernização do fim das cédulas incentivada, principalmente, pela penetração crescente de smartphones. Os pagamentos físicos feitos por dispositivos móveis têm subido mais de 400% desde novembro, quando a política foi implementada. Os comerciantes de todo o país, desde os operadores de mercado até motoristas, que representavam o principal meio de circulação de cédulas de dinheiro, agora estão sendo motivados a adotarem os métodos de pagamento digitais.

Imaginando um mundo sem dinheiro

A Suécia já é considerada uma das nações mais progressistas no mundo quando se trata de dinheiro digital. Para imaginar como um mundo sem dinheiro já pode ser realidade, apenas 2% das transações no país são feitas com cédulas segundo dados do Banco Central sueco. O fim do dinheiro entre os suecos se deve não apenas pela popularidade do plástico – os consumidores do país usam seus cartões mais de três vezes que a média dos europeus – mas também pelo crescimento de aplicativos de pagamento. A maioria deles utiliza ainda aplicativos no smartphone para transferirem dinheiro em tempo real e essa atitude pode ser, facilmente, replicada nas transações B2B e B2C.

Sem troco 

A corrida da Índia em direção a um futuro sem cédulas de dinheiro é sinal de uma tendência que estamos testemunhando em todo o mundo e o Brasil está, certamente, em uma posição avançada neste quesito. Como mais um exemplo disso, no país, atualmente, R$ 34 de cada R$ 100 em compras são feitas por cartões, segundo pesquisa da Visa Performance Solutions. Uma das razões que estimulam essa atitude do consumidor é que essa tecnologia de pagamento utilizada nessas transações é aceita em mais de 20 estabelecimentos comerciais a cada mil habitantes, o que coloca o Brasil no mesmo nível que países como Estados Unidos e Canadá. Ao mesmo tempo, o México registra somente R$ 15 pagamentos a cada R$ 100 em compras com cartão e há somente quatro estabelecimentos comerciais que aceitam este tipo de pagamento para cada mil habitantes.

Com o crescimento de novos meios de pagamento eletrônicos como Apple Pay, que se tornou mundialmente conhecido em 2016, e os lançamentos do Samsung Pay e Android Pay no ano passado, consumidores passam a ser, cada vez mais, incentivados a abandonarem as cédulas de dinheiro.

Ainda nesse cenário, a revolução do eCommerce tem permitido que mais negócios passem a oferecer produtos e serviços online. Agora, os consumidores podem pagar por quase qualquer produto via online ou mobile, desde solicitar flores até pagarem a corrida de táxi de volta para casa, como já pode ser observado no Brasil. E, mais importante do que isso, é que a nova tecnologia tem mostrado que um número maior de pagamentos físicos passa a ser processado digitalmente.

No Brasil, o eCommerce também tem se mostrado oportuno para este movimento pró-digitalização do dinheiro com estimativa de crescimento entre 10% e 15% para este ano, segundo análise da Fecomercio SP, após finalizar 2016 com um crescimento de 11%, de acordo com a ABComm (Associação Brasileira de Comércio Eletrônico).

O futuro digital já está dando seus sinais e não somente entre os países desenvolvidos, como têm demonstrado Brasil e Índia – a digitalização do dinheiro é um fenômeno global. O pagamento digital foi o arranque para a revolução sem dinheiro, e os smartphones se mantêm como a chave para essa nova sociedade. E já estamos nesse caminho, dando adeus ao dinheiro velho, e indo ao encontro do dinheiro moderno. 

Juan D’Antiochia, General Manager da Worldpay para a América Latina