O Brasil é o único país no cinturão tropical do globo que foi capaz de conquistar a posição de potência agrícola. As tecnologias de manejo transformaram nossos solos pobres em terra fértil. A tropicalização dos cultivos, com ciclos diferenciados, nos permitiu aproveitar terras em todas as condições climáticas. Os manejos e as práticas sustentáveis que desenvolvemos constituem um arsenal de defesa ambiental. Com seu dinamismo empreendedor, os produtores souberam combinar esses conhecimentos e aproveitar as oportunidades de mercado. Eles conduziram a agricultura a patamares que tornaram as safras do Brasil essenciais para a segurança alimentar do país e do mundo.

Este modelo inédito de agricultura baseada em ciência colocou o Brasil em destaque no mundo, como protagonista de uma verdadeira revolução na produção de alimentos nos trópicos.  Apesar dos avanços alcançados, a antecipação das demandas para alimentação e agricultura ao longo do século 21 indicam substanciais desafios para os sistemas de pesquisa e inovação brasileiros, com destaque para:  a) o enfrentamento de novas pragas, patógenos e plantas invasoras; b) a busca do aumento da eficiência no uso do solo e da água; c) a necessidade de contínua redução de impactos negativos no meio ambiente; d) a crescente demanda por alimentos seguros e nutritivos, com funcionalidades que promovam a saúde e o bem-estar; e) o passivo social que ainda aflige o mundo rural brasileiro, em especial nas regiões mais pobres; f) a expectativa de produção crescente e sustentável de excedentes para exportação, essencial para a segurança alimentar e a paz no futuro.

Portanto, o Brasil precisará intensificar a sua produção agropecuária de forma sustentável, elevando a produtividade e a qualidade com tecnologias de baixo impacto ambiental, buscando reduzir riscos, poupar recursos, elevar renda e promover a inclusão produtiva dos agricultores mais pobres. O país precisará ainda fortalecer sua agenda de pesquisa agropecuária voltada para agregação de valor, diversificação e especialização da produção, para alcance de mercados mais sofisticados, competitivos e rentáveis no futuro. Esses desafios podem se tornar maiores frente a rupturas, como mudanças drásticas no comportamento da sociedade, aprofundamento das mudanças climáticas globais e avanço muito rápido no mundo da ciência e da tecnologia.

Para responder a esses desafios, o Brasil lidera um grande esforço de geração e uso de tecnologias “poupa-recursos”, de baixa emissão de carbono, capaz de promover a sofisticação e a expansão sustentável da sua produção agropecuária. Expansão baseada mais em eficiência e ganhos na produtividade da terra, em sintonia com o novo Código Florestal Brasileiro. O Plano ABC – “Agricultura de Baixa Emissão de Carbono” é uma arrojada política pública que visa a ampliação da recuperação de pastagens degradadas, a integração Lavoura-Pecuária­-Floresta (ILPF), o sistema de plantio direto (SPD), a fixação biológica de nitrogênio (FBN), florestas plantadas e o tratamento de dejetos animais.

"O Brasil precisará intensificar a sua produção agropecuária de forma sustentável, elevando a produtividade e a qualidade com tecnologias de baixo impacto ambiental, buscando reduzir riscos, poupar recursos, elevar renda e promover a inclusão produtiva dos agricultores mais pobres"

Os sistemas de integração Lavoura-Pecuária-Floresta (iLPF) se destacam no âmbito da agricultura de baixa emissão de carbono do Brasil. A capacidade das pastagens de capturar e armazenar o carbono da atmosfera no solo, bem como as cadeias produtivas associadas (carne, leite, grãos e silvicultura), permitirão ao Brasil neutralizar gases de efeito estufa na produção de alimentos, gerando serviços ambientais, créditos de carbono e bem-estar animal, projetando a agricultura brasileira como uma das mais sustentáveis do planeta. 

Por isso, chama a atenção do mundo o potencial de intensificação sustentável da agricultura brasileira. Uma grande extensão de nossas áreas agrícolas pode ser utilizada de maneira segura 365 dias ao ano, produzindo, no mesmo espaço, grãos, proteína animal, fibras e bioenergia. E, diferentemente de qualquer grande produtor de alimentos no mundo, o Brasil mantém mais de 60% do seu território com cobertura vegetal natural. Esse protagonismo e as oportunidades de geração e disseminação de tecnologias capazes de promover a expansão sustentável da produção agropecuária dominarão a agenda da pesquisa agropecuária brasileira.

Apesar dos avanços, não podemos esquecer que a agricultura está inserida em contextos cada vez mais dinâmicos e complexos, com crescente ampliação dos anseios da sociedade e dos mercados. O grande risco é que questões conjunturais e apenas preocupações do presente nos joguem na perplexidade, tolhendo a criatividade e a ousadia que precisaremos ter para a construção de uma trajetória de longo prazo para a nossa agricultura, com mais foco na inovação, na integração de esforços e na sustentabilidade.  Infelizmente não é incomum, nas muitas discussões sobre a agricultura brasileira, predominar atenção apenas ao presente e ao passado, com pouca prioridade para discussão de trajetórias em direção ao futuro, que será certamente mais dinâmico e desafiador.

A redução dos riscos e das incertezas nos muitos processos que movem o agronegócio brasileiro só será alcançada com planejamento sofisticado e tecnologias que nos permitam integrar e gerir sistemas cada vez mais complexos. Portanto, precisamos nos preparar para um futuro que nos exigirá cada vez mais criatividade e ousadia.

Maurício Antônio Lopes - Presidente da Embrapa