A economia brasileira tem enfim começado a esboçar alguma reação. Existe alguma divergência entre analistas sobre qual será o ritmo de retomada econômica. Nas projeções perto de zero, no qual a 4E se inclui com projeção de queda de 0,2% para o PIB deste ano, a retomada é lenta e gradual, mas o PIB apresenta crescimento em todos os trimestres deste ano, crescendo num ritmo anualizado de 2% já a partir do segundo trimestre. Nas projeções perto de 0,5%, que é a mediana do mercado, este ritmo de crescimento tem que começar mais cedo ou ser um pouco mais forte no segundo semestre do ano, alcançando 3%.

Num contexto de recuperação econômica, a razão do PIB apresentar baixo ou nenhum crescimento este ano diz mais respeito ao carregamento estatístico de 2016, que é negativo em 1,1 ponto percentual. Visto de outra forma, se a economia estagnar no nível do 4º trimestre de 2016, o crescimento em 2017 será negativo em 1,1%. Assim, mesmo para um número perto de zero, a economia tem que crescer algo como 2%, do início ao final de 2017.

Para 2018, sem o efeito negativo do carrego estatístico, a maior parte das projeções indicam algo entre 2% e 3%. Mas, e na sequência? O que teremos?

"Na verdade, projetar a capacidade de desempenho no longo prazo requer uma análise mais elaborada do que olhar no retrovisor. Requer entender o que causou a queda recente na atividade econômica, analisar as restrições estruturais da economia e fazer algumas premissas"

Num horizonte mais longo a divergência entre os economistas é maior. Crescemos pouco nos últimos anos. E tivemos retração econômica nos últimos oito trimestres. com isso, as diferentes modelagens existentes apontam quadros bem divergentes. De um lado, filtros estatísticos apontam para um PIB potencial negativo, em torno 1,5% ao ano. Alguns poucos economistas têm se prendido a estes números sem fazer uma análise do real significado dos mesmos. De fato, a economia recuou significativamente nos últimos anos. A média de crescimento em 2015 e 2016 é negativa em 3,7% ao ano. Nos últimos quatro anos, a média é negativa em 1% ao ano. Assim, se o desempenho tem sido recorrentemente negativo, o filtro apontará uma tendência também negativa.

Outros economistas, neste caso em maior número, para não apontar um número negativo, têm projetado PIB potencial na casa de 1% ou 1,5% ao ano. Estes números não são muito diferentes da média de crescimento dos últimos oito anos, que está em 1,2%. Desta forma, se este foi o desempenho dos últimos anos, parece natural que seja então nossa capacidade de crescimento.

Na verdade, projetar a capacidade de desempenho no longo prazo requer uma análise mais elaborada do que olhar no retrovisor. Requer entender o que causou a queda recente na atividade econômica, analisar as restrições estruturais da economia e fazer algumas premissas. Economistas que fazem esta abertura, decompondo a queda recente da atividade numa função de produção para o Brasil, encontram um menor uso dos fatores produtivos capital e trabalho, além de brutal queda de produtividade.

Olhando a frente, restrições estruturais e um crescimento normal da produtividade (de 0,6% ao ano) apontam um PIB potencial na casa dos 3% ao ano, segundo estimativas da 4E. No médio prazo (2019–2022) o Brasil pode crescer mais que isso, justamente utilizando capacidade e mão de obra existentes e/ou tendo um crescimento maior da produtividade perdida.

Juan Jensen - Doutor em economia pela USP, sócio da 4E Consultoria e professor do Insper (jensen@4econsultoria.com.br)