Novamente esse dia que muitos questionam o porquê de existir. Todo ano dedico este espaço para falar das razões, com números em mão, com exemplos, com referências, de por que o dia 8 de março é dedicado a nós, mulheres, e os muitos problemas que ainda persistem em questão de igualdade de gênero.

Milhões de nós estão se manifestando ao redor do mundo. Algumas decidiram não trabalhar, outras vestiram roupas roxas e outras estão usando suas trincheiras para dizer o que pensam sobre ser mulher em mundo que, em pleno ano de 2017, ainda se refere a nós com condescendência, ainda que nós formemos uma maioria absoluta (a metade mais um; 51% do total da população mundial).

E, no entanto, ainda não chegamos ao ponto de toda essa força ser vista com o verdadeiro peso e valor que tem. É incrível, mas ainda falamos de "coisas de homens", da cor rosa para identificar o gênero feminino, da violência ativa ou passiva como algo constante em nossa sociedade, em todos seus níveis socioeconômicos.

No entanto, ainda nos dizem que "já viram que podemos fazer" isso ou aquilo, que até podemos "ser engenheiras", que "até podemos ser diretoras de uma empresa", com um tom de que ainda estamos sendo testadas.

Por isso sempre celebro quando uma mulher chega a um patamar nunca antes alcançado, porque derruba o muro (os mentais, não os que vão ser construídos na fronteira) que fez as sociedades avançarem apenas de forma unilateral, com um lado dizendo que tem mais valor. O masculino, sempre.

Nós, mulheres, estamos historicamente em desvantagem: culpam-nos por usar roupas "provocativas", pelo assédio ou, ainda pior, por estupros e assassinatos. Somos acusadas de "não cuidar das crianças e termos filhos demais, porque convém ao homem minimizar suas responsabilidades.

Entretanto, milhões de mulheres em todo o mundo devem lutar, às vezes literalmente, para que um "NÃO" saído de sua boca seja entendido como tal.

De toda forma, alguns de vocês devem estar lendo essa coluna enquanto esperam que sua esposa sirva o café da manhã, porque, se você trabalha, é ela que tem que servir e cuidar dos filhos. Ainda existem, inclusive, aqueles que traem porque "não recebem em casa o que necessitam", porque acham que o matrimônio é uma satisfação unilateral.

Continuamos pensando, ao vermos uma mulher consertando um carro, que está fazendo aquilo porque ainda não chegou um homem para resgatá-la. Continuamos a pensar que, se uma mulher chega a uma posição gerencial, é porque fez algum tipo de "favor" para chegar lá. Nós ainda ouvimos que, se não somos mães, não há nada que nos valide como mulheres. Ainda nos dizem que precisamos de um parceiro para sermos completos...

Em pleno ano de 2017, temos um senhor que afirmou que, quando se é uma celebridade, pode-se "agarrar as mulheres pela vagina" - que delírio! - e que conquistou o cargo de presidente da nação mais poderosa do mundo. 

E pior ainda, chegamos ao ponto em que nos dizem que podemos ser o que quisermos, mas apenas se a gente não negligenciar nossas responsabilidades "femininas": cuidar da casa, dos filhos, vestir-se de forma apropriada, falar de forma correta e se aproximar apenas das pessoas certas.

Estamos em um ponto no qual o falso progressismo nos diz, com um olhar de condescendência, que "nos dão a chance" de sermos mulheres, de nos expressar, de escolher, desde que - maldito condicionamiento - não ultrapassemos alguns parâmetros criados pela ignorância e pelo preconceito.

Hoje é o Dia da Mulher não porque "celebramos" ser mulher, mas porque estamos lutando para que as futuras gerações de mulheres não precisem questionar se podem ou não fazer X ou Y. Trata-se de uma celebração para lembrar a todos neste planeta que, entre todas as coisas que nos diferenciam, sexo e gênero não deveriam estar na lista. Os #8M (8 de Março) seguirão ocorrendo até que todos entendam isso plenamente.