No último dia 17 de maio, a Procuradora-Geral venezuelana enviou uma carta à Comissão Presidencial da Assembleia Nacional Constituinte listando as razões pelas quais se opõe a convocação de um "Assembleia Nacional Constituinte Cidadã". Entre outras coisas, Luisa Ortega Diaz criticou a forma como foi realizada a convocação, sem consultar o povo e ameaçando ignorar os direitos consagrados na Constituição de 1999.

A procuradora ressaltou que é óbvio para qualquer observador imparcial que a atual crise venezuelana não requer a aprovação de uma nova constituição, e que este procedimento, longe de resolver a crise, ameaça seriamente agravá-la.

Diante da recusa do governo de Nicolás Maduro em aceitar a crítica da Procuradora, Ortega Díaz foi ao Supremo Tribunal de Justiça para pedir a anulação da convocação feita pelo presidente. Diante da recusa imediata do tribunal, que na prática funciona como um órgão privado de Maduro, resolveu entrar com um pedido de liminar contra os juízes do Supremo Tribunal "porque poderiam estar praticando o crime de conspiração contra a organização republicana da nação", previsto no Código Penal e na própria Constituição venezuelana.

A procuradora já havia acusado anteriormente a Sala Constitucional do Supremo Tribunal de Justiça de adotar uma política que levou a uma ruptura da ordem constitucional, após proferirem as famosas sentenças 155 e 156, que dissolveram o parlamento venezuelano e oficializaram a ditadura de Maduro.

Desta forma, Luisa Ortega Diaz, que até então tinha sido uma peça-chave no obscuro dispositivo institucional organizado ao longo de quase duas décadas pelo chavismo, causou uma imensa fratura no já enfraquecido governo de Maduro, cujas consequências ainda estão para ser vistas.

A procuradora, é claro, não age sozinha, mas representa as mais altas esferas do poder de uma parte da dissidência chavista. Um movimento absolutamente desprezado e ignorado no discurso oficial, e pouco sujeito a deixar ser retratado na mídia de oposição, motivo pelo qual acaba tendo exposição apenas nas redes sociais e em alguns espaços menores de comunicação a seu alcance.

Estes grupos dissidentes, liderados agora pela Procuradora, que finalmente parecem começar a distanciar-se da enorme máquina oficial, não deixam de ser fortemente contraditórios, embora coerentes com um certo habitus do comportamento chavista. Porque ao mesmo tempo que representam uma parte do descontentamento popular, são, em grande parte, correligionários de uma espécie de dogmatismo místico que os leva a ignorar descaradamente as reais causas da tragédia venezuelana da qual são vítimas diretas.

Eles são, como a Procuradora-Geral Luisa Ortega Diaz, defensores devotados do que se denomina popularmente como "o legado de Chávez". Apoiadores raivosos do falecido comandante, para quem as causas do colapso do país são totalmente alheias à sua gestão delirante, são apenas atribuíveis às medidas de Nicolás Maduro, à "guerra económica" e à queda dos preços do petróleo.

No entanto, para o bem ou para o mal, esses grrupos serão fundamentais na nova etapa de transição em curso na Venezuela. Uma transição que ainda não está muito claro se o lento declínio do chavismo levará a uma restauração da democracia. Ou se, pelo contrário, o fracasso da experiência revolucionária financiado pelo petróleo vai acabar lenvando à consolidação de uma nova ditadura na história da América Latina.