O modelo de produção que o Chile adota não serve a todos os chilenos. Enquanto garante rendas vultosas para algumas poucas famílias, gera pouco emprego e baixos salários, explorando demais a natureza e comprometendo o futuro das próximas gerações.

Os países que baseiam a sua atividade econômica em recursos naturais podem crescer, mas não se desenvolver. Eles têm graves desequilíbrios econômicos, regionais e sociais, receitas de exportação instáveis, dependem das variações de preços internacionais e não fazem grandes esforços na área da inovação por terem uma mentalidade rentista.

A transformação neoliberal do modelo econômico destruiu grande parte da força de trabalho do país, assim como a sua expertise produtiva. Os trabalhadores, na sua maioria, foram transformados em meros comerciantes do que outros países produzem ou em prestadores de serviços para garantir as exportações de matérias-primas. Por isso que hoje é tão difícil incorporar novos processos e tecnologias à matriz produtiva nacional.

A política econômica chilena reproduz o modelo rentista. O Estado não incentiva a diversificação produtiva. Um exemplo paradigmático disso foi o caso da Intel: na segunda metade dos anos 90, seus executivos queriam iniciar a produção de componentes de computadores no Chile, e a consulta junto às autoridades econômicas da época teve uma resposta antológica: o Estado é neutro e não fornece nenhum benefício a nenhum setor específico; é o mercado que decide sobre a instalação de empresas. Curioso porque não foi o que ocorreu no setor florestal, cujos empresários receberam um subsídio generoso desde 1974.

Por causa dessa ideologia o abismo produtivo de nossa economia foi agravado: por um lado, um setor moderno de alta tecnologia, que produz e exporta recursos naturais, apoiado por um vasto setor financeiro; de outro, uma indústria de bens decadente, com baixa produtividade, isolada dos mercados por causa da incapacidade de competir no atual mundo globalizado.

Hoje em dia, os grandes empresários e economistas apenas repetem o discurso de que os culpados pelo baixo crescimento são as reformas desestabilizadoras na educação, o sistema fiscal e, eventualmente, a questão trabalhista. No entanto, não assumem a sua própria responsabilidade. Eles controlam o mercado e insistem na produção e na exportação de recursos naturais, cujos preços internacionais tendem a cair não por culpa do governo, mas pela queda na demanda chinesa e europeia. Continuam apostando na renda fácil, sem maiores riscos, em vez de desenvolver atividades que agreguem valor a bens e serviços.

Além disso, ao insistir na exportação de recursos naturais esses empresários não aproveitam as vantagens de acesso aos mercados negociadas nos acordos de livre comércio para produtos com maior valor agregado. Eles estão, portanto, desperdiçando a oportunidade de diversificar a pauta de exportações fechando as portas para novos negócios e melhores empregos.

É preciso encontrar um outro modelo de produção que seja a base para o desenvolvimento econômico do Chile. Será mais difícil investir em inovação e diversificar; mas isso obrigará os empresários a trabalhar mais e a acabar com o conforto das rendas. Bom para eles, melhor para o país.

Comprometer-se nesse sentido exige que o Estado adote outra política econômica. Uma ativa, com um regime fiscal que encareça a produção de recursos naturais, que regule de forma mais rígida o setor financeiro e que proporcione incentivos aos agentes econômicos em novos setores produtivos. Ao mesmo tempo, essa política deve garantir uma efetiva concorrência nos mercados, acabar com os monopólios e facilitar a atuação das PMEs (pequenas e médias empresas) com iniciativas de fomento e crédito acessível.

Além disso, é necessário incentivar o investimento em ciência e tecnologia, ainda muito insuficiente em nosso país, assim como a instalação de centros tecnológicos que apoiem o desenvolvimento de clusters nas áreas de mineração, florestal, pesca e agricultura nas diferentes regiões do país.

Em terceiro lugar, um novo modelo produtivo precisa melhorar radicalmente a qualidade da educação formal e a capacitação dos trabalhadores. Novas tecnologias, maquinário e processos exigem profissionais e trabalhadores com formação mais especializada. Isso resultará em uma maior produtividade, empregos de maior qualidade e melhores salários. Por último, devemos melhorar a competitividade das PMEs fornecendo crédito barato, promovendo ações de fomento e facilitando o acesso aos mercados.

Afinal de contas, se queremos que o desenvolvimento do país seja uma realidade, precisamos de um novo modelo produtivo, capaz de disseminar os frutos do crescimento entre grandes e pequenos empresários, entre trabalhadores e proprietários. E que, ao mesmo tempo, favoreça a inovação, o investimento em ciência e tecnologia, estimule o surgimento de uma nova força de trabalho, com uma constante capacitação de profissionais.