Há alguns meses, no contexto da eleição de Trump nos Estados Unidos e da vitória no Reino Unido da opção de deixar a União Europeia, a revista "The Economist" publicou uma edição sobre a nova divisão política no mundo. Segundo a publicação, não se trata mais de uma oposição entre direita e esquerda, mas entre quem defende manter seus países abertos para a entrada de mercadorias e imigrantes e quem prefere fechar suas fronteiras para bens e pessoas de outras nações.

E de qual lado o México pretende se posicionar nesta nova divisão política entre cosmopolitas e nacionalistas?

Após o fim da Segunda Guerra Mundial, teve início um movimento de maior integração econômica e política entre as nações. A União Europeia foi, sem dúvida, o grande experimento cosmopolita do século 20. Os europeus renunciaram à soberania nacional em troca de um livre fluxo de mercadorias e pessoas entre os países. O resultado foi impressionante: o continente teve décadas de paz e de grande expansão econômica como nunca antes havia ocorrido em sua história.

A queda do Muro de Berlim em 1989 acelerou o processo de integração europeia. O presidente Salinas percebeu que os ventos soprariam na direção de um mundo cada vez mais cosmopolita. Foi então que ele decidiu negociar o Tratado de Livre Comércio da América do Norte (Nafta, na sigla em inglês). Embora a economia mexicana já estivesse passando por um processo de abertura desde o governo de De la Madrid, ela ainda era um tanto restritiva: o comércio internacional e o investimento direto estrangeiro não tinham grande impacto no crescimento.

O país tampouco era aberto em relação à questão imigratória: não éramos muita amigáveis com estrangeiros. Com exceção dos exilados espanhóis republicanos dos anos 30 e dos perseguidos pelas ditaduras na América do Sul nos anos 70, o México era um país de difícil acesso. Além disso, tínhamos uma das leis mais restritivas em questão de cidadania: não era permitida a dupla nacionalidade, por exemplo.

Éramos um país muito fechado. Seguindo a premissa de que a economia deve se desenvolver a partir da substituição de importações, não permitiamos a entrada de bens e serviços do exterior. Sob os preceitos do nacionalismo revolucionário, não deixávamos que os estrangeiros viessem viver facilmente no país. Tudo isso temperado com um discurso que tinha um componente contra os inimigos históricos externos, sobretudo o vizinho do norte. Até os anos 80, no México ainda se respirava uma atmosfera anti-yanquista.

Tudo isso mudou com a decisão histórica de abrir o país economicamente, começando com o Nafta. Hoje o México é um dos países mais abertos do mundo do ponto de vista comercial. Temos 12 acordos de livre comércio com 45 países que representam mais de 60% do PIB mundial. Isso gerou um boom de exportações de produtos manufaturados nas últimas duas décadas. Enquanto o México ainda segue sendo um país relativamente fechado em matéria de imigração, tem avançado ao permitir, por exemplo, que os mexicanos tenham direito a várias nacionalidades além da mexicana, como quase todo país ocidental.

O problema é que, enquanto nos tornamos cada vez mais cosmopolitas, os ventos estão mudando para o nacionalismo em vários países. Os britânicos querem o livre comércio com a Europa, mas não o trânsito livre de pessoas. Os norte-americanos elegeram um presidente que pensa que o Nafta é o pior acordo comercial da história e que os imigrantes sem documentos devem ser expulsos a pontapés: um nacionalista que acredita que todos os problemas dos EUA se devem aos cosmopolitas que governaram o país recentemente.

É possível que o México tenha uma reação nacionalista como resultado dos ventos que sopram no ocidente? Claro que sim. O nacionalismo se espalha como fogo quando uma nação se sente agredida por estrangeiros. Os insultos e queixas de Trump contra o México certamente despertarão esse anti-yanquismo histórico que estava adormecido pelo êxito do Nafta e a cada vez maior integração de milhões de mexicanos nos Estados Unidos.

Não há dúvida que o México também pode seguir um líder nacionalista da estirpe de Farage, Trump, Le Pen, Wilders, Erdogan ou Putin. Alguém disposto a manipular os sentimentos primitivos dos seres humanos. Uma má notícia para aqueles que acreditam em um mundo cada vez mais cosmopolita.

* Esta coluna foi publicada originalmente em Excelsior.com.mx.