O Brasil enfrenta situação dramática e muito mais grave do que a superficialidade com que se costuma observar o quadro pode imaginar. A despeito de sinais concretos de que a República deteve a hemorragia, ainda não é o momento do ufanismo leviano de praxe. A fragilidade é extrema. Qualquer recidiva será fatal.

A sociedade se mostrou mais sábia e mais responsável do que o Estado. As famílias sentiram na carne a redução de sua capacidade de consumo. Procederam a cortes substanciais. Diminuiu-se o gasto naquilo que não era essencial e, depois disso, até no essencialíssimo.

Essa contenção é um dos fatores que impedem acelerada retomada do desenvolvimento. O consumo interno arrefeceu. O número de desempregados é muito maior do que as estatísticas mostram. A indústria escasseou estoques e não tem condições de se aparelhar para oferecer produtos mais modernos e, ao mesmo tempo, mais baratos. 

“Em relação à greve do funcionalismo, já passou da hora de se discutir o tema e de produzir aquilo que é fundamental ao estado de direito: a lei. A inexistência de norma é nefasta”

Para superar sólidas barreiras, o Brasil terá de atrair investimento externo. E este não se aventurará em terra insegura. Se o Parlamento produzir as reformas imprescindíveis, a começar pela previdenciária, em seguida pela trabalhista, após a tributária e, se houver juízo, a política, a sinalização será eficiente. Mas se as profundas alterações estruturais do Estado são urgentes e necessárias, elas não se mostram suficientes.

Aí vai entrar a sensatez da população. O que a sociedade pensa de motins, de revoltas, de greve em serviços essenciais, quando ela se sacrificou e continua a se sacrificar, em virtude de desmandos que foram cometidos por detentores de função pública?

Desde 1988, há quase 30 anos, o Brasil espera a edição de leis que regulem a greve no serviço público. Como outros temas nevrálgicos e complexos, o enfrentamento foi evitado na instância adequada. O parlamento é a “caixa de ressonância das aspirações populares”, como dizia Montesquieu, o formatador da sempre lembrada tese da separação de funções.

Um dos fenômenos contemporâneos é a omissão do Legislativo, que deveria ser o poder mais relevante, pois é o elaborador das regras do jogo, com transferência de suas responsabilidades para o Judiciário. Mas em relação à greve do funcionalismo, já passou da hora de se discutir o tema e de produzir aquilo que é fundamental ao Estado de Direito: a lei. 

A inexistência de norma é nefasta, como comprovam os acontecimentos de fevereiro no Espírito Santo, com irradiação para o Rio de Janeiro e sinal de alerta para outros Estados da Federação.

Conclama-se a nacionalidade como um todo a se portar com juízo e prudência. Matérias-primas que, assim como a ética, parecem faltar no estoque cívico tupiniquim.