O dia 13 de janeiro (além do meu aniversário) foi o início de um debate acalorado sobre a condução da política monetária no Brasil.

André Lara Rezende, baseando-se principalmente em um trabalho de John Cochrane, levantou a hipótese de que taxas de juros maiores podem causar uma inflação mais alta, na contramão do que determina a literatura tradicional da área.

Independente de concordar ou não, duas coisas ficaram muito claras: o artigo estimulou um debate muito interessante o que por si só já é positivo; e revelou que as pessoas possuem pouca tolerância a opiniões diferentes, mesmo num universo que necessita delas, a academia.

A discussão tem recrutado economistas de peso. Affonso Pastore, Marcos Lisboa, Samuel Pessôa e José Julio Senna (para ficar apenas com uma pequena amostra) confrontaram a conclusão com a evidência empírica: a experiência do regime de metas de inflação no Brasil (instaurado em 1999) não permite acreditar que a relação entre taxa de juros e inflação, ao longo do tempo, seja positiva.

Ao contrário, os eventos têm corroborado para concluir que a teoria tradicional funciona. Eduardo Loyo também contribuiu com o debate ao deixar bem claro quais as semelhanças entre o modelo “tradicional” (ou ortodoxo, se quiser) e essa hipótese alternativa (neofisheriana para os iniciados).

Este artigo tem por objetivo incluir mais pessoas no debate. Portanto, ao invés de lavar roupa suja, lavemos louça. Imagine que hoje você sujou apenas um prato e decidiu lavar também um prato. Como fica a pilha de louça suja? Não sei, pode ficar de qualquer jeito. Isso é o que os economistas chamam de indeterminação. Quando as taxas de juros sobem na mesma medida que a inflação, a inflação resultante pode ser baixa (pouca louça para lavar) ou alta (uma pilha enorme).

Para resolver isso a teoria evoluiu com o princípio de Taylor. Se você sujar um prato, tem que lavar mais de um prato. Isso fará com que a pilha convirja para um montante menor. Ou seja, se a (expectativa de) inflação subir, a taxa de juros tem que subir mais que proporcionalmente, para que a inflação caia.

E como encaixar a hipótese trazida por André Lara Rezende?

Imagine que ontem você lavou dois pratos e hoje decide lavar três pratos. Seu irmão passou na cozinha e percebeu que você aumentou o número de pratos lavados de um dia para o outro. Ao verificar isso ele concluiu que no dia seguinte ele poderia sujar mais louça, já que tinha a expectativa que você aumentasse o número de pratos lavados.

Portanto, no dia seguinte, mesmo lavando mais louça (quatro pratos, por exemplo) como além de você, o seu irmão também sujou outros pratos, a pilha aumentou. Ou seja, o resultado do aumento nos pratos lavados (taxa de juros) foi o aumento da pilha de louça suja (inflação).

Talvez esse tipo de dinâmica faça sentido num ambiente muito específico no qual não podemos diminuir a quantidade de pratos lavados por dia e ela já está muito baixa, como nos países desenvolvidos. Talvez. Mas o Brasil está muito longe dessa situação.

Onde parece haver menos resistência ao argumento de André Lara Rezende é que a inflação também seria influenciada pelos gastos públicos. Imagine que na sua casa também more um primo que adora dar festas. Não adianta você lavar a louça se ele sistematicamente abusa nas comemorações.

No Brasil, a farra com o dinheiro público pode acabar se conseguirmos controlar os gastos com a Previdência e, assim, a pilha de louça para lavar vai ficar cada vez menor, dando espaço para que dediquemos o nosso tempo com outras coisas.