O Brasil está dividido. É um campo de batalha entre direita e esquerda, com objetivos iguais: viver em um lugar onde haja paz, trabalho e prosperidade. Tem também os que assistem aos episódios de execração de cima do muro. Além disso, há extremistas – a turma do Bolsonaro.

Enquanto isso, em Boston, nos Estados Unidos, o clima é outro. Faz frio em maio, embora a primavera tenha chegado. Nos campos de Harvard, as árvores florescem e as pessoas já mudam a rotina, com a chegada da nova estação. Nas salas de aulas, alunos e professores discutem e estudam como é que o mundo deve olhar para os problemas, fazem descobertas e comemoram as conquistas em bares e restaurantes na Newbury Street com hambúrguer, cerveja e batata frita. Sim, é possível observar professores e universitários sentados à mesma mesa com pratos muito mais simples em relação àquelas belas apresentações à moda francesa (a preços bem atrativos).

"É preciso racionalizar, relativizar e observar mais a fundo a educação, a qualificação e o foco para o futuro".

A Maratona de Boston não marca apenas mais um local para os amantes da corrida, mas sim expõe o quanto a população é determinada. Encontra-se um razoável número de corredores pelas ruas, em qualquer horário. É fácil entender. A corrida tira as pessoas da depressão, cria um ambiente de desafio e disciplina, assim como ocorre nos estudos. É a cara de Boston ter uma legião de corredores, que se dividem entre estudar, trabalhar, correr e descansar. As americanas correm bastante bem, diga-se de passagem. São rápidas e focadas.

A vida lá certamente é dura, sem qualquer comparação com a miséria da fome – ser miserável não reflete exatamente, ou na mesma ordem, não ter dinheiro. E relativizando a miséria, a amplitude da discussão fica maior. Uma vida pode ser miserável por inúmeros aspectos que nada têm a ver com dinheiro, mas com condição de vida, o que envolve oportunidade e sorte, por exemplo.

Brasileiros que vivem em Boston sabem que a vida ali é um campo de sacrifícios. Viver no Brasil deve ser mais fácil, não? Talvez pessoas avessas à vida social pensem diferente. É a exceção. A capital do Estado de Massachusettes é um tanto quanto inóspita, com ares de cidade estudantil na região das universidades, mas fora isso é um lugar comum. O que chama a atenção é o modo como as pessoas vivem ali e os seus objetivos.

Observar Boston, os campi e as pessoas, depois de alguns dias, traz angústia de ser brasileiro, embora a vibrante vivacidade do Brasil dê orgulho. O país está muito atrasado em matéria de consciência política e social. É preciso racionalizar, relativizar e observar mais a fundo a educação, a qualificação e o foco para o futuro. A tranquilidade dos cidadãos com os quais me deparei durante a estada nos Estados Unidos traz a sensação de esquizofrenia coletiva no Brasil. Chamem um psiquiatra e peguem as senhas. Vamos nos tratar. E oremos para que depois da tempestade venha alguma bonança, com honestidade.

Bruna Lencioni – Editora-chefe da AméricaEconomia Brasil