O ser humano é vocacionado a conviver. O fenômeno da vida em solidão é excepcional e foi Tomás de Aquino quem formulou as três hipóteses possíveis de ocorrência na realidade: excellentia naturae, corruptio naturae e mala fortuna.

A primeira é a classe dos afortunados indivíduos excepcionalmente providos de atributos nem sempre comuns, de virtudes que os tornam autossuficientes, a desnecessitar de convivência. Exemplo dos eremitas, filósofos e pensadores que se autobastam em sua intensa vida meditativa.

O segundo caso é o antípoda. A patologia converte alguns seres em criaturas insuscetíveis de partilharem experiências, excluindo-os do convívio. Já a terceira hipótese é resultado da má sorte. Apenas por infelicidade é que seres normais, ou seja, não especialmente virtuosos ou mentalmente enfermos, por algum acontecimento se vêm obrigados a uma vida isolada. O exemplo mais emblemático surgiu muito depois da formulação tomística e foi celebrizado na literatura, com o personagem Robinson Crusoé.

Conviver é, portanto, o destino natural dos integrantes de nossa espécie. Já detectara Aristóteles que, ao contrário de outros filhotes, o bebê dos homens precisa de cuidados imediatos, assim que vem à luz.

Conviver é, portanto, o destino natural dos integrantes de nossa espécie. Já detectara Aristóteles que, ao contrário de outros filhotes, o bebê dos homens precisa de cuidados imediatos, assim que vem à luz.

Mas a beligerância tem inúmeras causas. Egoísmo, inveja, ambição, tudo pode ensejar conflitos. Por isso é que se inventou o Estado para coordenar uma coexistência o quão possível pacífica, provendo-o do monopólio da força com o intuito de impedir que o planeta sedie guerra de todos contra todos, conforme previu Thomas Hobbes.

A violência está em todos os espaços. Se no Brasil não registramos luta armada institucionalizada, a soma das violências tópicas equivale a esse estado de guerra de outras nações.

Crescem os homicídios, os latrocínios, as chacinas e os espancamentos. Sem falar na violência implícita da indiferença, da insensibilidade, do desrespeito em relação ao semelhante.

Agrava-se a situação nacional, porque as crises geram desalento e deflagram reações indesejáveis, como o desemprego, que produz uma sequência de eventos nefastos. Alcoolismo, brigas e crescentes ilicitudes.

Acrescente-se a tudo isso a “fratura do material” do sistema representativo. A política, ainda essencial à condução do Governo, tem se portado de maneira a decepcionar o universo representado.

Falta muito para que a população treinada para depender inteiramente do Estado, qual entidade mentalmente hipossuficiente e destinada a permanecer infinitamente tutelada, assuma o protagonismo cidadão que reclama deveres, obrigações e responsabilidades. A era dos direitos consolidou uma cultura de dependência. E quando faltam recursos financeiros, quando o Estado mergulha numa crise trágica, muito mais grave do que a de 1929 e, portanto, a mais aflitiva de nossa história, é urgente a recomposição do convívio.

O Brasil não pode prescindir de esperança e de crença em dias melhores. O capital internacional está com evidente apetite para investir aqui e só é inibido diante de notícias veiculadas instantaneamente quanto a manifestações que resultam em vandalismo, desordem e confronto. Cabe a cada brasileiro ainda provido de bom senso reforçar os laços fraternos de convívio. É urgente reaproximar o Brasil real do Brasil legal. Para que não caiba afirmar que enquanto este promete o paraíso, aquele está mais próximo às profundezas da condenação eterna.