Em um contexto de aprovação do ajuste fiscal no congresso e inflação em trajetória de queda, o Banco Central iniciou no final do ano passado um novo ciclo de redução da taxa de juros. Começou timidamente, com duas quedas de 0,25 ponto percentual. Em janeiro, surpreendendo parte relevante do mercado, acelerou a queda para 0,75 ponto percentual, levando a taxa Selic para 13%, um patamar ainda alto. As justificativas da aceleração da queda recaíram sobretudo na fraqueza da atividade econômica, motivo que ampara adequadamente a decisão, ainda que a sinalização do Banco Central tenha sido falha.

Analisando o quadro à frente, e baseado nas sinalizações do Banco Central, são esperadas novas quedas de 0,75 ponto percentual, ritmo que segundo o atual presidente do Banco Central, Ilan Goldfajn, é o “novo ritmo”, em afirmação a jornalistas feita em janeiro, no Fórum Econômico Mundial de Davos, na Suíça. Mas até onde a queda de juros pode ir?

As justificativas da aceleração da queda recaíram sobretudo na fraqueza da atividade econômica, motivo que ampara adequadamente a decisão, ainda que a sinalização do Banco Central tenha sido falha.

Boa parte das projeções indicam juros de apenas um dígito. A 4E, por exemplo, trabalha com taxa Selic atingindo o patamar de 9,5% em setembro. Diferentemente de outros momentos de queda dos juros, a redução atual encontra fundamentação na teoria econômica e no atual ambiente conjuntural. São três os principais fatores que têm levado a estas projeções: (i) uma inflação que segue bem-comportada, além de expectativas ancoradas em torno da meta; (ii) continuidade de aprovação do ajuste fiscal, ainda que em ritmo mais lento; e (iii) recuperação bastante lenta da atividade econômica.

Vale destacar que o principal canal de transmissão da política monetária para a inflação é pela atividade econômica. Movimentos para cima e para baixo das taxas de juros afetam o custo do crédito e o custo de oportunidade para os poupadores, afetando a atividade econômica por movimentos da demanda, alterando os preços de diversos mercados e, portanto, a inflação.

Num contexto em que a recuperação da atividade econômica siga bastante fraca, podemos nos surpreender com uma redução de juros ainda mais intensa, que não impede que a inflação siga bem ancorada. A 4E, por exemplo, projeta que o PIB deste ano seja novamente negativo, em 0,2%. O mercado e sobretudo o governo ainda devem revisar para baixo suas projeções de crescimento ao longo dos próximos meses. Desta forma, reduções de um ponto percentual por reunião na taxa Selic e níveis ainda mais baixos, algo como 8%, não podem ser descartadas.

Riscos a esta nova trajetória existem e são devidamente monitorados pelo nosso Banco Central. A elevação mais forte dos juros nos EUA, num ambiente das políticas implementadas por Donald Trump, pode depreciar significativamente o real e interromper o processo de convergência da inflação. Domesticamente, novas turbulências políticas podem colocar em risco a continuidade do ajuste fiscal, fundamental para podermos conviver com juros mais baixos.