Como se não faltasse drama para a imensa tragédia que vive o povo sírio há seis anos, temos agora o ataque contra civis com armas químicas na província de Idlib, supostamente realizado pelo regime de Bashar al-Assad, e dois dias depois a retaliação feita pelos Estados Unidos contra a base áerea de onde partiu o ataque. A ação envolveu 59 mísseis Tomahawk e foi uma resposta quase imediata ao horror de dois dias antes, provocando uma mudança substancial no contexto que havia prevalecido ao longo dos últimos meses na guerra civil síria.

Apenas alguns dias antes do ataque com gás sarin, o presidente dos Estados Unidos havia afirmado que a saída de Assad do poder não era uma prioridade para os EUA - o oposto do que a administração Obama defendia - e, no entanto, ordenou o ataque à base aérea síria sem pedir permissão ao Congresso.

Nada sugere que essa operação será ampliada ou que será o ponto de partida de uma intervenção militar envolvendo forças norte-americanas além da sua atual participação na guerra com bombardeios aéreos contra o Estado Islâmico. Trump sabe - e afirmou isso durante sua campanha - que mergulhar no pântano sírio é similar ao que ocorreu com o envolvimento dos EUA no Iraque e no Afeganistão. Mas um golpe pontual e esmagador, como o dado na madrugada da última sexta-feira (9), pode ser bastante útil para objetivos de curto prazo, que não incluem solucionar os problemas fundamentais que levaram ao conflito sírio.

De concreto e no plano imediato, Trump conseguiu realizar o feito de punir uma das muitas infâmias realizadas por Assad sem arriscar muito. Pelo contrário, com o ato, Trump conseguiu sair como o personagem virtuoso da história diante das nações árabes sunitas que se opõem a Assad (do Irã ao Hizbollah), capaz de dar uma lição avassaladora e eficaz contra esses inimigos do mundo muçulmano xiita.

Diante da comunidade internacional e boa parte do público em casa, finalmente protagonizou um episódio de sucesso que compensou os vários fiascos dos seus primeiros 75 dias no cargo. Da mesma forma, enviou a mensagem de que pode estar falando sério quando afirma que dará uma lição à Coreia do Norte se a nação continuar com seus rompantes.

A outra grande questão está relacionada à Rússia e a Putin. Dado o emaranhado de suspeitas sobre supostos conluios entre Trump e o presidente russo que desprestigiaram e colocaram em posição difícil seu governo, a oposição dos mandatários diante deste episódio, cada um deles em posição diametralmente oposta, cumpre perfeitamente a missão de dissipar, ainda que temporariamente, as suspeitas de que Trump se tornou um fantoche de Putin após fazer negociações obscuras.

Dessa forma, por enquanto Trump vive alguns dias de glória e, sem dúvida, de euforia, embora exista a possibilidade de uma escalada nas tensões com Rússia e China. Quanto ao povo sírio, é evidente que os sofrimentos devem continuar ainda que as armas químicas não sejam usadas novamente. Na verdade, a tragédia continua a piorar a tal ponto que já pode ser qualificada como o episódio mais vergonhoso da humanidade nesta segunda década do século 21.